segunda-feira, 19 de agosto de 2013

barquinho de papel

queria desbravar os sete mares, enfrentar tempestades, derrotar o gigante adamastor. adentrar no mar, às vezes azul, às vezes verde, às vezes negro da noite escura, e fazer do seu ondular o meu melhor amigo. navegar nos quatro cantos do mundo, mergulhar na esquecida atlantis, dizer olá à moby dick, saquear o navio de barba ruiva e fazer pra mim um lindo colar de pérolas negras.
queria, queria muito, mas como poderia, se sou apenas um barquinho de papel? um leve encostar na superfície úmida e já começo a me desfazer. e como poderia então fazer o que tanto desejo se para isso não fui feito? sou apenas um enfeite, uma dobradura pra brincar. por isso eu peço, por favor, me desfaça de uma vez e me dobre de avião. ao menos poderei voar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

high hopes



nunca postei nenhum vídeo aqui, essa nunca foi a intenção do blog. mas agora a pouco eu tava ouvindo umas coisas do pink floyd que não ouvia fazia muito tempo. tava escutando "learning to fly", e vi nos vídeos relacionados a "high hopes", daí eu pensei "putz, como assim, faz séculos que não ouço essa música, tinha até esquecido", e lá fui eu ouvi-la de novo. foi uma sensação meio familiar, como se a música expressasse como eu me sentia às vezes. não sei explicar, mas parece a trilha sonora simplesmente perfeita para quando eu tenho meus momentos de ficar pensando nas coisas, na vida. queria escrever melhor isso, mas acho que ia ficar muito pessoal, eu não ia saber explicar ou pareceria muito bobo quando eu colocasse em palavras, se eu conseguisse. só deu vontade de escrever alguma coisa, mesmo que de maneira desajeitada.

encumbered forever by desire and ambition
there's a hunger still unsatisfied
our weary eyes still stray to the horizon
though down this road we've been so many times

sábado, 5 de fevereiro de 2011

supernova

silêncios. vários silêncios vindos de fora, misturados com um tique-taque de uma bomba relógio interior. mas um tique-taque também silencioso.
barulho é relativo. às vezes o som da sua consciência pode ser mais ruidoso do que o de uma multidão enfurecida. outras vezes, sua consciência cansada não diz absolutamente nada. nem você diz nada, nem ninguém. e é o silêncio mais barulhento que alguém pode ouvir. é sobre esse último tipo de silêncio que estou falando aqui. o tipo ensurdecedor.
era tanto silêncio que ela não ouvia nenhuma resposta para nenhuma de suas dúvidas, de seus questionamentos. e aquilo foi crescendo dentro dela, um amontoado de não-seis, de serás e de porquês. e tudo se confundia, vários problemas concatenados que no fim se tornavam um outro novo maior e ainda mais insolucionável.
ficou tão, mas tão enorme, que em alguns dias já era gigante. uma pequena gigante. e mesmo desse tamanho, ainda não parava de crescer. e agregava perguntas que nem eram dela de verdade, que surgiam só por surgir, sem razão aparente. no entanto, eram reais e eram fortes.
até que um dia, sem mais nem menos, puf! ela explodiu. explodiu e se partiu. se dividiu em milhares e milhares de pedaços. e, curiosamente, cada um desses pedaços era uma das infinitas respostas que ela sempre procurou. pois é, estavam o tempo todo lá.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

caro caramujo

caro caramujo,
por que você não sai pra passear? faz tanto tempo que você está aí, e eu sei que no fundo você quer, então por que você não vem?
você tem medo? medo das coisas do mundo aqui de fora? medo das pessoas aqui de fora? medo de você mesmo aqui fora? eu poderia te falar "não tenha medo", mas quem não tem medo de nada pode acabar se tornando inconsequente. tenha medo, tenha medo sim, caramujo. um pouco de medo faz bem, e faz melhor ainda quando a gente consegue deixá-los para trás. tenha medo sim. mas só não tenha medo demais.
será que você acha que não vale a pena? e se você acha, como você pode estar tão certo assim? achar não é ter certeza, achismos não valem nada. você só vai saber mesmo se você sair daí, dessa fortaleza ambulante que você criou. do lado de cá existem cores que você nunca imaginou que existissem.
meu caro caramujo, te convido a vê-las todas comigo.
vamos passear amanhã?

noite

não sei por que gosto mais da noite se me sinto melhor de dia.
ao mesmo tempo em que espero sua chegada eu também temo.
o dia suaviza as angústias. a luz deixa tantas coisas tão claramente certas que perdemos de vista o que está no escuro. já a noite, a noite penumbrece, deixa o mistério, a confusão. à meia luz é mais difícil de enxergar. mas ainda é melhor do que enxergar somente o óbvio. será? o meio termo facilita o equívoco. há sombras demais atrapalhando a visão.
a noite é melancólica. a noite é frágil.
a noite dura mais do que ela dura porque ela dói mais. a noite é dura.
a noite é como uma dobradura de papel. aparências, apenas aparências fracas. de dia, as fantasias noturnas clareiam tanto até completamente desaparecerem.
a noite é ilusória.
e às vezes eu não sei se acendo a luz ou se fecho os olhos. talvez seja melhor esperar o sol.

domingo, 30 de janeiro de 2011

o monstrinho solidão

debaixo da minha cama vive um monstrinho chamado solidão. na idade dos monstros ele tem apenas 4 anos, pois cada ano monstrengo equivale a cinco anos terráqueos e, de cama em cama, ele sempre me acompanhou.
se você olhar bem, ele até parece um bichinho simpático. é uma bolinha peludinha com cerca de trinta centímetros, acinzentado como uma manhã chuvosa e com uns olhos grandes, melancólicos e azuis. na verdade, apesar de ser um monstro, não acho que ele seja mau. apenas um pouco triste.
às vezes, quando vou me deitar, eu alimento o solidão. trago alguma bolacha ou um pedaço de pão com geléia (ele adora geléia, principalmente de amora). inclusive, acho que o estou mimando demais, ele está ficando bem gordinho. mas não consigo evitar, só assim consigo vê-lo esboçando um sorriso, por mais tímido que seja.
apesar de não saber ao certo o que ele fala, afinal são apenas resmungos baixinhos, eu entendo o monstrinho. eu converso bastante com o solidão, e ele parece me entender também. enquanto eu conto o que me acontece, ele me conta as histórias mirabolantes que inventou enquanto me esperava. me conta sobre seus amigos imaginários e seu universo paralelo. e eu acho tudo tão delicado e tão singelo que às vezes me escapam algumas lágrimas. tanto que o solidão até já sabe e fica sempre com um lencinho a postos em suas mãos.
ele está crescendo, o monstrinho. há alguns dias, me fez prometer que nunca o abandonaria. eu prometi. pode parecer estranho, mas no solidão eu encontrei um amigo e um conforto que não-monstros nunca conseguiram me dar.

ode à prometazina

de uns tempos para cá, confesso,
tens sido minha melhor amiga.
no escuro o retrocesso:
um mosquito desgraçado
e logo brota uma ferida.
e quem eu chamo no silêncio?
é você, prometazina.
mesmo se eu não tiver a receita
com a letra horrorosa
que não consigo adivinhar;
mesmo se eu não tiver um trocado,
uma única nota para pagar
prometa nunca ir embora
prometa ter disciplina,
pois enquanto estou aqui
à cumprir a minha sina,
ainda tenho você para me livrar da alergia.
seus trinta gramas milagrosos acabam com a coceira,
me deixam mais tranquila para pensar
e escrever baboseira.

(como essa, por exemplo)