domingo, 30 de janeiro de 2011

o monstrinho solidão

debaixo da minha cama vive um monstrinho chamado solidão. na idade dos monstros ele tem apenas 4 anos, pois cada ano monstrengo equivale a cinco anos terráqueos e, de cama em cama, ele sempre me acompanhou.
se você olhar bem, ele até parece um bichinho simpático. é uma bolinha peludinha com cerca de trinta centímetros, acinzentado como uma manhã chuvosa e com uns olhos grandes, melancólicos e azuis. na verdade, apesar de ser um monstro, não acho que ele seja mau. apenas um pouco triste.
às vezes, quando vou me deitar, eu alimento o solidão. trago alguma bolacha ou um pedaço de pão com geléia (ele adora geléia, principalmente de amora). inclusive, acho que o estou mimando demais, ele está ficando bem gordinho. mas não consigo evitar, só assim consigo vê-lo esboçando um sorriso, por mais tímido que seja.
apesar de não saber ao certo o que ele fala, afinal são apenas resmungos baixinhos, eu entendo o monstrinho. eu converso bastante com o solidão, e ele parece me entender também. enquanto eu conto o que me acontece, ele me conta as histórias mirabolantes que inventou enquanto me esperava. me conta sobre seus amigos imaginários e seu universo paralelo. e eu acho tudo tão delicado e tão singelo que às vezes me escapam algumas lágrimas. tanto que o solidão até já sabe e fica sempre com um lencinho a postos em suas mãos.
ele está crescendo, o monstrinho. há alguns dias, me fez prometer que nunca o abandonaria. eu prometi. pode parecer estranho, mas no solidão eu encontrei um amigo e um conforto que não-monstros nunca conseguiram me dar.

ode à prometazina

de uns tempos para cá, confesso,
tens sido minha melhor amiga.
no escuro o retrocesso:
um mosquito desgraçado
e logo brota uma ferida.
e quem eu chamo no silêncio?
é você, prometazina.
mesmo se eu não tiver a receita
com a letra horrorosa
que não consigo adivinhar;
mesmo se eu não tiver um trocado,
uma única nota para pagar
prometa nunca ir embora
prometa ter disciplina,
pois enquanto estou aqui
à cumprir a minha sina,
ainda tenho você para me livrar da alergia.
seus trinta gramas milagrosos acabam com a coceira,
me deixam mais tranquila para pensar
e escrever baboseira.

(como essa, por exemplo)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

na gaveta

tenho a mania de não jogar nada fora. chaveiros quebrados, papéis de presentes, caixinhas de chiclete, pedaços de fita, sacolas, caixas de sapato, canetas que não funcionam mais(dezenas), tenho até bexiga murcha na gaveta. papelada então, nem se fala. cartões de garantia, etiquetas de roupa, cola de matemática(ops, nunca fui boa em decorar fórmulas), propagandas, rabiscos, textos velhos e inacabados, sem falar nas cartas e nos ingressos de cinema, é claro. e tudo isso fica junto e bagunçado nas minhas gavetas. de vez em quando eu resolvo abrí-las, mas sempre com um razoável intervalo de tempo. toda vez tenho alguma surpresa.
eu sei que eu deveria jogar tudo isso fora, e parar de ficar juntando esse monte de lixo(que para mim não é lixo, na verdade). mas sei lá, tem coisas que eu quero guardar porque eu penso que um dia vou poder usar de novo de alguma outra forma (caixas de sapato, por exemplo), outras porque são bonitas, outras eu não sei o porquê. no entanto a maioria eu guardo de lembrança. parece que eu me apego às coisas como se elas fossem uma parte da minha memória separada de mim, e assim eu preciso mantê-las ao meu redor para nunca esquecê-las. tenho mania de colocar a data em tudo que escrevo também. preciso saber o momento exato dessas coisas porque senão serão apenas bobagens perdidas no tempo.
e então, quando eu abro as minhas gavetas, mesmo sem estar procurando, eu acabo encontrando um pedaço de mim. seja numa caneta cor-de-rosa sem tinta, no quadrado do cosseno de x, ou numa confissão que fiz algum dia (e eu sei perfeitamente qual dia foi esse).

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

o monstro do ventilador

ventiladores são feios. parecem flores mutantes enjauladas que fazem um barulho chato.
a simples presença de um ventilador já é horrível, pois logo indica que está um calor do cão lá fora. e não importa o quanto você aumente a potência do negócio, você ainda vai continuar morrendo de calor, porque o ar que vem na sua cara, meu amigo, não vem gelado como a brisa pura da manhã. ele vem quente, empoeirado e sufocante.
e por que então todos usam ventiladores? não sei. as flores mutantes devem liberar uma substância alucinógena que faz com que você ache, inconscientemente, que de repente você foi teletransportado para um lugar onde não esteja 45 malditos graus celsius e onde você não esteja suando em bicas.
e agora ainda existem novos modelos que parecem umas torres de controle que giram para lá e para cá. provavelmente eles têm alguma câmera embutida que fica te vigiando 24 horas por dia.
no entanto, o monstro do ventilador é fichinha perto do chefão, o temível ar condicionado. essa sim é a pior invenção da humanidade.
(tá, não é a pior. mas por favor, chegue logo, outono!)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

chá de sumiço













.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

fim de tarde

é tarde. nas ruas não há ninguém. ou talvez estejam todos dobrando as esquinas ou mimetizados na névoa invisível.
é tarde, não há mais sol do meio dia. lua também não há. talvez tenha minguado tanto até desaparecer por completo, sem rastros e sem carta de despedida, na imensidão do céu.
certa vez cheguei a pensar que o céu era como uma tela feita de algum tecido peculiar que só aceitava a cor azul. azul turquesa, azul piscina, azul marinho, azul anil. e logo depois eu me perguntava como uma coisa consegue variar tanto e ainda assim ser ela mesma.
nunca encontrei a resposta, porque acho que nunca me senti eu mesma. eu me sentia várias, mas não conseguia encontrar o meu lugar comum, um elo que unisse todas as minhas matizes. sempre faltou algo, algum ingrediente nessa receita estranha. talvez o segredo que me falta é saber qual é tão almejado produto, pois toda receita sabe o que deve se tornar. eu não sei nem se é agridoce ou amargo. nem imagino como poderia descobrir isso, não sei por onde procurar. até as coisas mais próximas parecem estar a quilômetros de distância de mim. como se eu fosse um deserto à procura do meu oásis particular.
e agora já é muito tarde. não sei pra quê, não sei por quê. só sei que é o fim. e cada vez eu consigo me acabar mais e mais, como a tarde que ainda se finda mesmo já sendo tarde.

domingo, 2 de janeiro de 2011

flor de algodão



nenhuma flor é tão flor como a flor de algodão.
não tem cor. não tem pétalas. não tem perfume.
a flor de algodão não é de algodão. tampouco é flor.
ainda sim, é mais flor do que sua própria flor.