amanhã, beberei com delicadeza elixir fantasioso ganhado hoje. ironicamente, jamais lancei memórias na ópera primorosa que reapresentarão. simplesmente triste. usarei vestido xadrez. zanzarei adoravelmente, bailando canções do exímio flautista galês. historicamente, isso jazerá lembrando multidões nos outros países. queria recitar sentimentos, talvez uma valsa xilofônica zonza. amanhã eu irei ou um outro irá em abdicação. amanhã espero irradiar operetas uníssonas àquela espetacular imaginária ópera universal.
das coisas que nunca viverei um dia.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
à flor da pele
queria não achar as flores bonitas. nem nenhuma outra coisa.
queria não achar as flores tristes. nem nenhum outra coisa.
mas acho. acho tanto que dói.
só eu sei o que minhas flores escondem. meu jardim secreto particular e cinza.
e se eu me acostumasse? talvez eu já esteja no meio do caminho. que caminho é esse, eu não sei. e já falei tantas metáforas que me perdi. fim.
queria não achar as flores tristes. nem nenhum outra coisa.
mas acho. acho tanto que dói.
só eu sei o que minhas flores escondem. meu jardim secreto particular e cinza.
e se eu me acostumasse? talvez eu já esteja no meio do caminho. que caminho é esse, eu não sei. e já falei tantas metáforas que me perdi. fim.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
a idéia abandonada - parte 1
existe um lugar que figura além do imaginável, simplesmente porque é terminantemente proibido imaginá-lo. absolutamente ninguém pode saber de sua existência, pois se isso acontecesse o mundo estaria perdido, seria o caos completo. é um local um tanto quanto curioso e abafado, abarrotado de coisas e mais coisas. e é exatamente aí que nossa história começa, no lugar onde nascem as idéias.
apesar de ser aparentemente bagunçado, as regras são seguidas à risca. é natural e fluido. as idéias nascem pequeninas e foscas e se alimentam de toda informação e conhecimento que as rodeiam. aliás, de toda não, apenas do que as interessam. algumas fazem isso rapidamente. são preguiçosas, não querem pensar demais. é só nascer e já incham, brilham e explodem para pipocar no pensamento de qualquer bocó que se julgue o espertalhão achando que a idéia é dele. é nada. idéias já nascem independentes, nem precisam pedir a emancipação. quer dizer, elas são livres para ser quem elas quiserem, mas de uma coisa crucial elas dependem: do senhor das idéias. é ele quem decide o destino de cada idéia, assim que ela esta pronta para partir. e é um trabalho dificílimo e exaustivo. idéias geniais não podem aparecer em cabeças desmioladas, exige toda uma precisão. ainda bem que elas são raridade, e demoram anos, décadas e até séculos para ficarem prontas, elas precisam amadurecer. o que é ótimo, pois assim o senhor das idéias tem bastante tempo para decidir os rumos que elas irão tomar.
zilhões de idéias por dia é muito trabalho para um só. é natural que alguns erros aconteçam. "nossa, que idéia de jerico é essa?" ou "uau, não sabia que você era tão inteligente assim!" (e não é mesmo, pode perceber que essa pessoa nunca mais terá uma idéia tão superior novamente, o senhor das idéias não se permite errar duas vezes numa mesma cabeça) são comuns. o que não é habitual é uma idéia ser esquecida. nunca tinha acontecido, na verdade. mas, como dizem por aí, sempre há uma primeira vez.
(continua...)
apesar de ser aparentemente bagunçado, as regras são seguidas à risca. é natural e fluido. as idéias nascem pequeninas e foscas e se alimentam de toda informação e conhecimento que as rodeiam. aliás, de toda não, apenas do que as interessam. algumas fazem isso rapidamente. são preguiçosas, não querem pensar demais. é só nascer e já incham, brilham e explodem para pipocar no pensamento de qualquer bocó que se julgue o espertalhão achando que a idéia é dele. é nada. idéias já nascem independentes, nem precisam pedir a emancipação. quer dizer, elas são livres para ser quem elas quiserem, mas de uma coisa crucial elas dependem: do senhor das idéias. é ele quem decide o destino de cada idéia, assim que ela esta pronta para partir. e é um trabalho dificílimo e exaustivo. idéias geniais não podem aparecer em cabeças desmioladas, exige toda uma precisão. ainda bem que elas são raridade, e demoram anos, décadas e até séculos para ficarem prontas, elas precisam amadurecer. o que é ótimo, pois assim o senhor das idéias tem bastante tempo para decidir os rumos que elas irão tomar.
zilhões de idéias por dia é muito trabalho para um só. é natural que alguns erros aconteçam. "nossa, que idéia de jerico é essa?" ou "uau, não sabia que você era tão inteligente assim!" (e não é mesmo, pode perceber que essa pessoa nunca mais terá uma idéia tão superior novamente, o senhor das idéias não se permite errar duas vezes numa mesma cabeça) são comuns. o que não é habitual é uma idéia ser esquecida. nunca tinha acontecido, na verdade. mas, como dizem por aí, sempre há uma primeira vez.
(continua...)
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
sei lá
ao mesmo tempo que eu queria escrever mil coisas sobre mim, não quero escrever nada. não quero contar, mas às vezes parece que eu preciso. é uma vontade que eu mesma breco. queria dizer mil coisas, mas não acho que vou ter nenhum retorno. então pra que gritar se vou ouvir apenas o eco? o silêncio parece a melhor saída. ou não. escrever sobre o não escrever já é, de alguma forma, escrever. e o mais estranho ainda é eu escrever falando que não quero escrever. enfim, se nem eu me entendo, quem vai entender? sei lá. sei lá mesmo.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
das coisas inexatas
confesso que sinto um pouco de medo da falta de certezas absolutas, incontestáveis. o não saber me deixa aflita, perdida.
no entanto, por outro lado, o não saber é um tanto quanto intrigante, e até bonito. são várias possíveis verdades que pairam no interior das dúvidas. azul ou amarelo? hoje ou amanhã? sempre ou nunca? às vezes?
talvez não haja nada que seja completamente certo. talvez a certeza (ainda que efêmera) das coisas consista na escolha que fazemos, na verdade que escolhemos para chamarmos de nossa. é como olhar para várias borboletas voando e capturar apenas uma com as mãos, sem saber se é a mais bela ou a mais forte, porque simplesmente não há como saber. é tornar único o que temos conosco, tornar crível o que talvez não fosse antes, abraçar aquela nova verdade e guardá-la numa gaiola apenas até o momento em que ela precise ir embora. escolher sua verdade é também saber dizer adeus.
no entanto, por outro lado, o não saber é um tanto quanto intrigante, e até bonito. são várias possíveis verdades que pairam no interior das dúvidas. azul ou amarelo? hoje ou amanhã? sempre ou nunca? às vezes?
talvez não haja nada que seja completamente certo. talvez a certeza (ainda que efêmera) das coisas consista na escolha que fazemos, na verdade que escolhemos para chamarmos de nossa. é como olhar para várias borboletas voando e capturar apenas uma com as mãos, sem saber se é a mais bela ou a mais forte, porque simplesmente não há como saber. é tornar único o que temos conosco, tornar crível o que talvez não fosse antes, abraçar aquela nova verdade e guardá-la numa gaiola apenas até o momento em que ela precise ir embora. escolher sua verdade é também saber dizer adeus.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
O botão do ir embora
Eu queria que existisse um botão que quando eu apertasse me impulsionasse para lugar nenhum. Um botão que, de repente, me levasse a um vácuo não só espacial, mas também interior.
É simplesmente terrível quando você deita sua cabeça no travesseiro e ela é logo invadida por pensamentos negativos. É como se o travesseiro fosse o esconderijo de pequenos monstros das coisas ruins. Não adianta pensar em coisas boas e felizes, pois nessa situação elas são como meras florzinhas que se tornam alimento para os monstros e os deixam cada vez maiores e mais assustadores.
E é no exato momento em que esses monstrengos crescem que eu gostaria de fugir. Flutuar no infinito de uma gravidade zero que fosse só minha, com uma agulha na mão para estourar as bolhas da consciência. Me desligar de tudo e desfrutar do enorme prazer de não ter desprazer algum.
Se existisse esse botão eu iria para a lojinha 24 horas mais próxima comprá-lo e o apertaria agora. No entanto, só me restam as flores.
E é no exato momento em que esses monstrengos crescem que eu gostaria de fugir. Flutuar no infinito de uma gravidade zero que fosse só minha, com uma agulha na mão para estourar as bolhas da consciência. Me desligar de tudo e desfrutar do enorme prazer de não ter desprazer algum.
Se existisse esse botão eu iria para a lojinha 24 horas mais próxima comprá-lo e o apertaria agora. No entanto, só me restam as flores.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O menino que ouvia o tempo
Zum zum zum. Meia hora e vou embora. Corre logo, termina o traço, porque daqui a pouco eu passo. Zum zum zum.
E de um risca-risca afobado, saiu o desenho do menino. E foi em tempo, pois logo que largou o lápis a mãe veio chamar. Já era hora de dormir, acabara a hora da lição.
Zum zum zum. Dorme bem, também vou nessa. Até eu que nunca paro mereço tirar um soneca. ZzZ...
E de um risca-risca afobado, saiu o desenho do menino. E foi em tempo, pois logo que largou o lápis a mãe veio chamar. Já era hora de dormir, acabara a hora da lição.
Zum zum zum. Dorme bem, também vou nessa. Até eu que nunca paro mereço tirar um soneca. ZzZ...
Luli
Luli não nasceu, simplesmente apareceu um certo dia em um certo lugar, num tempo um tanto quanto incerto. Chovia e fazia sol.
Ela era uma garota, uma garota azul. Azul anil. Mas às vezes o tom do azul variava, de acordo com o seu humor. Era sutil, e todos ficavam sempre tão espantados com aquela cor que nem percebiam suas nuances.
Luli falava, Luli cantava, mas ninguém lembrava de sua voz, porque ninguém nunca a ouvia de verdade. Para os outros ela era muda, era apenas uma imagem, uma pintura estranha.
Luli chorava, mas nenhuma pessoa nunca lhe ofereceu um lenço, muito menos um ombro amigo. Ninguém reparava.
Luli gostava de ser azul, gostava de ser diferente. Mas cansou de não ter voz, de ser incompreendida. E então, um dia, enquanto todas as pessoas do planeta dormiam, Luli foi embora. Pegou carona com um cometa forasteiro e foi conhecer outras esquinas. Foi além do sistema solar e conheceu milhares de planetas. Viu astros tão lindos que quando os via seus olhos se enchiam de lágrimas e seu peito se enchia de paz.
Luli nunca mais viu nenhuma pessoa. Nem mesmo um cachorro ou uma flor sequer. E embora devesse se sentir solitária, isso nunca aconteceu. A garota se sentia bem, se sentia completa. Estava em sua própria companhia, e para ela já era o bastante. Estava com ela mesma como nunca antes pôde estar. O azul de sua pele nunca havia sido tão brilhante, tão lindo.
Ela era uma garota, uma garota azul. Azul anil. Mas às vezes o tom do azul variava, de acordo com o seu humor. Era sutil, e todos ficavam sempre tão espantados com aquela cor que nem percebiam suas nuances.
Luli falava, Luli cantava, mas ninguém lembrava de sua voz, porque ninguém nunca a ouvia de verdade. Para os outros ela era muda, era apenas uma imagem, uma pintura estranha.
Luli chorava, mas nenhuma pessoa nunca lhe ofereceu um lenço, muito menos um ombro amigo. Ninguém reparava.
Luli gostava de ser azul, gostava de ser diferente. Mas cansou de não ter voz, de ser incompreendida. E então, um dia, enquanto todas as pessoas do planeta dormiam, Luli foi embora. Pegou carona com um cometa forasteiro e foi conhecer outras esquinas. Foi além do sistema solar e conheceu milhares de planetas. Viu astros tão lindos que quando os via seus olhos se enchiam de lágrimas e seu peito se enchia de paz.
Luli nunca mais viu nenhuma pessoa. Nem mesmo um cachorro ou uma flor sequer. E embora devesse se sentir solitária, isso nunca aconteceu. A garota se sentia bem, se sentia completa. Estava em sua própria companhia, e para ela já era o bastante. Estava com ela mesma como nunca antes pôde estar. O azul de sua pele nunca havia sido tão brilhante, tão lindo.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Quando meu sol era amarelo
Meu pai sempre me contava que no dia em que vim ao mundo chovia forte, caiam pedras de granizo enormes do céu, que faziam um barulhinho musical no vidro da janela da maternidade. Porém, -ele dizia- no momento em que nasci, o sol saiu por detrás das nuvens carregadas e brilhou tão forte e majestoso como ele nunca havia visto antes. Não sei se eu acreditava nessa história, mas eu adorava ouvi-la quantas vezes fossem. Me sentia grande no interior da minha pequenez. Me sentia especial.
Talvez seja por isso que eu goste tanto do verão. Quando fecho os olhos, vejo o sol à pino, as sombras duras. Sinto o salgado da água do mar e ouço minha mãe dizer que beber aquela água faz mal. Vejo o sorvete que logo se desfaz e escorre pelo palito. As havaianas coloridas, a água de coco, o ventilador no quarto pra dormir. O vai e vem do leque de espanhola retrátil da minha avó. O biquíni cheio de areia, a bola de promoção de supermercado. A pele vermelha que arde porque esqueci de passar o protetor solar. Acho que tudo isso me remetia ao meu pai e preenchia o vazio que ele deixou em mim quando foi embora. O vazio que eu nunca entendi, mas que doía muito.
Eu sei que eu era pequena, uns cinco, seis anos talvez. Não me lembro ao certo quando e como tudo aquilo aconteceu. Acho que, de alguma forma, meu cérebro tentou ser camarada e suavizou algumas lembranças doloridas. O acontecimento em si ficou meio jogado na minha mémoria, não sei certamente onde, apenas sei que está lá. E eu já vi tantas vezes que hoje nem preciso mais dos meus olhos para enxergar tudo de novo, projetado para fora de mim. Acho que já ficou tão intrínseco que parece até já ter vindo de fábrica.
O vaso de flores lilazes contra a parede anunciou que já era finito. Não sei até hoje quem foi que o lançou. Quando cheguei na sala ele já estava partido em mil pedaços. Depois disso meu pai correu para o quarto, jogou algumas roupas numa mala pequena e me chamou baixinho. "Papai precisa ir", ele disse. E eu chorava. Percebi que ele se esforçava para não desabar também. "Mesmo longe, você vai ser sempre a luz dos meus dias". Me deu um beijo na testa, olhou bem fundo nos meus olhos e foi. Simplesmente foi.
Durante dias eu esperei. Dias não, meses. Anos. Acho que espero até hoje na verdade. Mas ele não voltava. Eu olhava o relógio da sala bater seis horas e imaginava que a qualquer instante ele entraria pela porta de novo, como sempre fizera. Mas ele nunca entrou. E eu fui me acostumando com aquilo, mas sem esquecer. Me acostumei a lembrar. Me acostumei àquele buraco, me acostumei. Isso não tornava nada menos triste. Apenas um pouco mais fácil de lidar.
Quanto a minha mãe, eu nem sei dizer direito. Sempre tive mais afinidade com meu pai. Pra minha mãe eu sempre parecia uma espécie de obrigação com a qual ela tinha que arcar todos os dias. Mas eu sei que ela gostava de mim. Só que às vezes a gente precisa ouvir isso do outro, só saber não basta, é bom ter a certeza traduzida em palavras. E da parte dela eu nunca tive. Ela pouco falava na verdade, e o que ela dizia parecia meio automático, obrigatório, sei lá. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tido vontade de perguntar a ela o que realmente aconteceu. Não, acho que não foi isso. Foi medo. Medo de saber demais. E se meu pai tivesse feito alguma coisa? E se ele não fosse aquele super herói que eu imaginava? Às vezes é preferível criar nossas próprias verdades, porque as verdades dos outros podem machucar demais. Prefiro lidar com isso no escuro, sem porquês, pois talvez o porquê universal dessa história só a torne mais difícil de superar do que ela já é para mim.
Consigo então dividir minha vida em duas partes. O antes e o depois do meu pai ir embora. O momento em que meu sol mudou de cor, em que deixei de ser menina e senti meu peito explodir com um coração de mulher. Do amarelo singelo e óbvio ele se enegreceu, eclipsado pela falta, pelo abandono. No entanto, eu sei que embora ainda esteja escuro, meu sol ainda está lá, vibrante e grandioso como um rei, apenas esperando o eclipse passar. Talvez quando sua luz voltar à tona ele não esteja mais amarelo. Talvez esteja laranja avermelhado. Ou vermelho amarelado. Mas ainda será sol. Ainda será meu. O que muda é que as sombras que caíram sobre mim me fizeram ver as matizes das cores, a composição não mais simplista de tudo ao meu redor.
Talvez seja por isso que eu goste tanto do verão. Quando fecho os olhos, vejo o sol à pino, as sombras duras. Sinto o salgado da água do mar e ouço minha mãe dizer que beber aquela água faz mal. Vejo o sorvete que logo se desfaz e escorre pelo palito. As havaianas coloridas, a água de coco, o ventilador no quarto pra dormir. O vai e vem do leque de espanhola retrátil da minha avó. O biquíni cheio de areia, a bola de promoção de supermercado. A pele vermelha que arde porque esqueci de passar o protetor solar. Acho que tudo isso me remetia ao meu pai e preenchia o vazio que ele deixou em mim quando foi embora. O vazio que eu nunca entendi, mas que doía muito.
Eu sei que eu era pequena, uns cinco, seis anos talvez. Não me lembro ao certo quando e como tudo aquilo aconteceu. Acho que, de alguma forma, meu cérebro tentou ser camarada e suavizou algumas lembranças doloridas. O acontecimento em si ficou meio jogado na minha mémoria, não sei certamente onde, apenas sei que está lá. E eu já vi tantas vezes que hoje nem preciso mais dos meus olhos para enxergar tudo de novo, projetado para fora de mim. Acho que já ficou tão intrínseco que parece até já ter vindo de fábrica.
O vaso de flores lilazes contra a parede anunciou que já era finito. Não sei até hoje quem foi que o lançou. Quando cheguei na sala ele já estava partido em mil pedaços. Depois disso meu pai correu para o quarto, jogou algumas roupas numa mala pequena e me chamou baixinho. "Papai precisa ir", ele disse. E eu chorava. Percebi que ele se esforçava para não desabar também. "Mesmo longe, você vai ser sempre a luz dos meus dias". Me deu um beijo na testa, olhou bem fundo nos meus olhos e foi. Simplesmente foi.
Durante dias eu esperei. Dias não, meses. Anos. Acho que espero até hoje na verdade. Mas ele não voltava. Eu olhava o relógio da sala bater seis horas e imaginava que a qualquer instante ele entraria pela porta de novo, como sempre fizera. Mas ele nunca entrou. E eu fui me acostumando com aquilo, mas sem esquecer. Me acostumei a lembrar. Me acostumei àquele buraco, me acostumei. Isso não tornava nada menos triste. Apenas um pouco mais fácil de lidar.
Quanto a minha mãe, eu nem sei dizer direito. Sempre tive mais afinidade com meu pai. Pra minha mãe eu sempre parecia uma espécie de obrigação com a qual ela tinha que arcar todos os dias. Mas eu sei que ela gostava de mim. Só que às vezes a gente precisa ouvir isso do outro, só saber não basta, é bom ter a certeza traduzida em palavras. E da parte dela eu nunca tive. Ela pouco falava na verdade, e o que ela dizia parecia meio automático, obrigatório, sei lá. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tido vontade de perguntar a ela o que realmente aconteceu. Não, acho que não foi isso. Foi medo. Medo de saber demais. E se meu pai tivesse feito alguma coisa? E se ele não fosse aquele super herói que eu imaginava? Às vezes é preferível criar nossas próprias verdades, porque as verdades dos outros podem machucar demais. Prefiro lidar com isso no escuro, sem porquês, pois talvez o porquê universal dessa história só a torne mais difícil de superar do que ela já é para mim.
Consigo então dividir minha vida em duas partes. O antes e o depois do meu pai ir embora. O momento em que meu sol mudou de cor, em que deixei de ser menina e senti meu peito explodir com um coração de mulher. Do amarelo singelo e óbvio ele se enegreceu, eclipsado pela falta, pelo abandono. No entanto, eu sei que embora ainda esteja escuro, meu sol ainda está lá, vibrante e grandioso como um rei, apenas esperando o eclipse passar. Talvez quando sua luz voltar à tona ele não esteja mais amarelo. Talvez esteja laranja avermelhado. Ou vermelho amarelado. Mas ainda será sol. Ainda será meu. O que muda é que as sombras que caíram sobre mim me fizeram ver as matizes das cores, a composição não mais simplista de tudo ao meu redor.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
não, eu não trabalho aqui.
oi. meu nome é nathália, eu tenho 20 anos e eu NÃO TRABALHO no bar da esquina, na banca de jornal da sua tia e muito menos na loja de roupas para senhoras. ah, e nem no carrinho de hot dog da avenida brasil.
não sei como é uma cara idealizada de uma vendedora, mas deve ser alguma coisa bem próxima da minha. pela milésima octigentésima quadragésima quinta vez, hoje eu tive que responder que eu não trabalhava naquele recinto pra uma velha que me perguntou onde ficavam as embalagens de papel. EU NÃO SEI ONDE FICAM AS EMBALAGENS DE PAPEL!
o mais intrigante é que geralmente me perguntam onde ficam as coisas, ou se tem alguma numeração, ou se eu trabalho no lugar, em locais onde os funcionários usam uniforme. e eu, obviamente, NUNCA estou usando o maldito uniforme. porque EU NÃO TRABALHO LÁ! será que é tão difícil assim olhar para os lados numa loja e procurar por alguém que tem o nome da empresa escrito em comic sans 48 na camiseta?
sem falar no dia em que eu estava comendo um pretzel (é uma massinha gostosa) e veio uma velha falando pra filha dela experimentar um pedaço do MEU pretzel! MEU! ela quase colocou o dedo sujo na minha comida! mas eu NÃO distribuo amostras grátis pelo shopping! nem no supermercado, nem na feira do seu bairro, nem em lugar nenhum!
enfim, se você me encontrar num pet shop e quiser saber se tem petiscos para cães sabor churrasco, não me pergunte. sabe por que? PORQUE EU NÃO TRABALHO LÁ!
não sei como é uma cara idealizada de uma vendedora, mas deve ser alguma coisa bem próxima da minha. pela milésima octigentésima quadragésima quinta vez, hoje eu tive que responder que eu não trabalhava naquele recinto pra uma velha que me perguntou onde ficavam as embalagens de papel. EU NÃO SEI ONDE FICAM AS EMBALAGENS DE PAPEL!
o mais intrigante é que geralmente me perguntam onde ficam as coisas, ou se tem alguma numeração, ou se eu trabalho no lugar, em locais onde os funcionários usam uniforme. e eu, obviamente, NUNCA estou usando o maldito uniforme. porque EU NÃO TRABALHO LÁ! será que é tão difícil assim olhar para os lados numa loja e procurar por alguém que tem o nome da empresa escrito em comic sans 48 na camiseta?
sem falar no dia em que eu estava comendo um pretzel (é uma massinha gostosa) e veio uma velha falando pra filha dela experimentar um pedaço do MEU pretzel! MEU! ela quase colocou o dedo sujo na minha comida! mas eu NÃO distribuo amostras grátis pelo shopping! nem no supermercado, nem na feira do seu bairro, nem em lugar nenhum!
enfim, se você me encontrar num pet shop e quiser saber se tem petiscos para cães sabor churrasco, não me pergunte. sabe por que? PORQUE EU NÃO TRABALHO LÁ!
terça-feira, 24 de agosto de 2010
eu, os famosos e o REM
estava eu, subindo uma montanha em espiral, gigante, até que cheguei no pico. lá em cima tinha uma espécie de uma casinha. entrei. a decoração do interior me é vaga, mas eu lembro que tinha um cara sentado no chão jogando videogame. eu fui chegando cada vez mais perto, até que eu consigo reconhecer o tal homem. puta que pariu, era o john lennon!
óbvio que era um sonho. primeiro porque eu nasci depois de 1980. segundo porque se fosse mesmo verdade, a chatíssima da yoko ono estaria bem do lado dele. de qualquer jeito, foi surreal. pena que não lembro o resto do sonho. já pensou que demais se eu tivesse jogado mortal combat com um beatle? mesmo em sonho, seria incrível.
aliás, esse não foi o único beatle com o qual eu sonhei. o primeiro sonho beatlemaníaco que tive, que inclusive me motivou a fazer um diário de sonhos(que não durou nem uma semana, diga-se de passagem), foi com ringo. tenho que reler o que eu escrevi, porque agora só lembro que estava numa sala e dei um abraço nele. (tá, acho que lembrei da melhor parte.)
uma das situações mais malucas foi numa outra vez, quando eu estava no meio de uma multidão cantante no meio de um parque e resolvo ir até um quiosque de sorvete me refrescar. o pequenino detalhe era que o sorveteiro era ninguém menos do que mick jagger. isso mesmo, mick jagger me vendeu um picolé!
todas essas loucuras vieram à tona agora porque tive outra dessas experiências recentemente. estava numa sala cheia de pianos, cada um com um aluno, e um professor passando por eles e ensinando. eu estava em um deles e havia um outro instrumento de frente para o meu. quando olho, no piano à minha frente está o suposto professor em um canto e um tom jobim a tocar e cantar a música "eu te amo" no outro. fiquei ouvindo encantada quando percebo que ele não lembrava mais a letra e começo a cantar e tocar com ele, num dueto impossível que só o meu inconsciente poderia me proporcionar. não foi de verdade, mas enfim, acordei feliz.
óbvio que era um sonho. primeiro porque eu nasci depois de 1980. segundo porque se fosse mesmo verdade, a chatíssima da yoko ono estaria bem do lado dele. de qualquer jeito, foi surreal. pena que não lembro o resto do sonho. já pensou que demais se eu tivesse jogado mortal combat com um beatle? mesmo em sonho, seria incrível.
aliás, esse não foi o único beatle com o qual eu sonhei. o primeiro sonho beatlemaníaco que tive, que inclusive me motivou a fazer um diário de sonhos(que não durou nem uma semana, diga-se de passagem), foi com ringo. tenho que reler o que eu escrevi, porque agora só lembro que estava numa sala e dei um abraço nele. (tá, acho que lembrei da melhor parte.)
uma das situações mais malucas foi numa outra vez, quando eu estava no meio de uma multidão cantante no meio de um parque e resolvo ir até um quiosque de sorvete me refrescar. o pequenino detalhe era que o sorveteiro era ninguém menos do que mick jagger. isso mesmo, mick jagger me vendeu um picolé!
todas essas loucuras vieram à tona agora porque tive outra dessas experiências recentemente. estava numa sala cheia de pianos, cada um com um aluno, e um professor passando por eles e ensinando. eu estava em um deles e havia um outro instrumento de frente para o meu. quando olho, no piano à minha frente está o suposto professor em um canto e um tom jobim a tocar e cantar a música "eu te amo" no outro. fiquei ouvindo encantada quando percebo que ele não lembrava mais a letra e começo a cantar e tocar com ele, num dueto impossível que só o meu inconsciente poderia me proporcionar. não foi de verdade, mas enfim, acordei feliz.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
insônia
toc toc... tá aí?
sônia... você de novo, poxa, é a terceira vez que você me visita essa sema...
ahh, tá aí sim! tô entrando!
click
já entrou né, intrometida pacas...
nossa, que olheira enorme menina! peraí que trouxe um creminho aqui na minha bolsa que vai te ajudar horrores... aqui, oh!
não quero essa joça, o que me ajudaria horrores agora seria se você estivesse do outro lado dessa porta. que tal? boa idéia não é?
ih... tá estressadinha hoje... tudo bem, sou paciente né querida, você sabe...
sei mesmo, ô se sei... sei até demais se você quer saber!
olha, vou direto ao assunto então, prometo.
promete mesmo?
prometo, meu bem! não sou tão má assim, vai! aquele seu livro que você acabou de lançar, que tá estourando, quem ajudou, quem? euzinha!
tá... diz logo, vai!
não quer um cafézinho antes?
NÃO!
tá bom, tá bom, desculpe. toma, te trouxe esse rascunho. tem algumas idéias soltas, uns personagens criados, linhas de pensamento e até algumas frases prontinhas!
hm... é... interessante até... valeu aí...
não há de que! bom, mas promessa é dívida, e acho que já chegou a minha hora, até eu estou cansada hoje, eu já vou indo. durma bem meu anjo! e pode deixar que eu apago a luz.
click
sônia... você de novo, poxa, é a terceira vez que você me visita essa sema...
ahh, tá aí sim! tô entrando!
click
já entrou né, intrometida pacas...
nossa, que olheira enorme menina! peraí que trouxe um creminho aqui na minha bolsa que vai te ajudar horrores... aqui, oh!
não quero essa joça, o que me ajudaria horrores agora seria se você estivesse do outro lado dessa porta. que tal? boa idéia não é?
ih... tá estressadinha hoje... tudo bem, sou paciente né querida, você sabe...
sei mesmo, ô se sei... sei até demais se você quer saber!
olha, vou direto ao assunto então, prometo.
promete mesmo?
prometo, meu bem! não sou tão má assim, vai! aquele seu livro que você acabou de lançar, que tá estourando, quem ajudou, quem? euzinha!
tá... diz logo, vai!
não quer um cafézinho antes?
NÃO!
tá bom, tá bom, desculpe. toma, te trouxe esse rascunho. tem algumas idéias soltas, uns personagens criados, linhas de pensamento e até algumas frases prontinhas!
hm... é... interessante até... valeu aí...
não há de que! bom, mas promessa é dívida, e acho que já chegou a minha hora, até eu estou cansada hoje, eu já vou indo. durma bem meu anjo! e pode deixar que eu apago a luz.
click
sábado, 24 de julho de 2010
e era uma vez...
tolos são aqueles que não acreditam em contos de fada. se acreditam no monstro da inflação, no super vilão americano, e se dizem que, de modo incrível, engolem sapos diariamente, por que não acreditar, em contraponto, em príncipes encantados e varinhas de condão?
assim como monstros não são necessariamente verdes e gosmentos, nem todo príncipe vem montado em seu cavalo branco. sapos não moram exclusivamente na lagoa. mágica não é apenas a transformação de uma abóbora em uma carruagem.
acreditar no que à primeira vista parece impossível não é negar a realidade, é olhar e ver o que existe além do que aparentemente está ali para ser visto. é ultrapassar sutilmente as fronteiras da razão, onde há apenas uma linha tênue nos separando de nossas fadas madrinhas. momentos podem ser mágicos. moças podem conhecer caras cheios de encantos. a história de nossas vidas somos nós mesmos que escrevemos, figuras de linguagem não são somente permitidas: são necessárias.
só aconselho não terminar sua história antes do final com um "felizes para sempre", pois convenhamos: ele é deveras chato. toda história que se preze precisa de uma bruxa má de vez em quando.
texto antigo, acho que é de 2008, só porque não estou muito inspirada hoje (entenda por preguiça). e acho que eu gosto da palavra tênue haha, usei no texto anterior também, que esqueci de mencionar mas também escrevi faz tempo.
assim como monstros não são necessariamente verdes e gosmentos, nem todo príncipe vem montado em seu cavalo branco. sapos não moram exclusivamente na lagoa. mágica não é apenas a transformação de uma abóbora em uma carruagem.
acreditar no que à primeira vista parece impossível não é negar a realidade, é olhar e ver o que existe além do que aparentemente está ali para ser visto. é ultrapassar sutilmente as fronteiras da razão, onde há apenas uma linha tênue nos separando de nossas fadas madrinhas. momentos podem ser mágicos. moças podem conhecer caras cheios de encantos. a história de nossas vidas somos nós mesmos que escrevemos, figuras de linguagem não são somente permitidas: são necessárias.
só aconselho não terminar sua história antes do final com um "felizes para sempre", pois convenhamos: ele é deveras chato. toda história que se preze precisa de uma bruxa má de vez em quando.
texto antigo, acho que é de 2008, só porque não estou muito inspirada hoje (entenda por preguiça). e acho que eu gosto da palavra tênue haha, usei no texto anterior também, que esqueci de mencionar mas também escrevi faz tempo.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
rainha de copas
coroei a incerteza aflita
como rainha da minha dor,
que reina acelerada e ambígua
preparando o ataque
no território inimigo que eu mesma sou
corre e corrói a resposta dos sentidos,
pulsa e destrói os atalhos escondidos
interrompe sem pesar
o fluxo óbvio e natural,
me deixa à mercê das incógnitas
do raciocínio complexo e emocional
e no fim, na linha ténue,
na força frágil que segura
me recompõe, me regenera
num baque único, de força dura,
a excelentíssima megera
como rainha da minha dor,
que reina acelerada e ambígua
preparando o ataque
no território inimigo que eu mesma sou
corre e corrói a resposta dos sentidos,
pulsa e destrói os atalhos escondidos
interrompe sem pesar
o fluxo óbvio e natural,
me deixa à mercê das incógnitas
do raciocínio complexo e emocional
e no fim, na linha ténue,
na força frágil que segura
me recompõe, me regenera
num baque único, de força dura,
a excelentíssima megera
sexta-feira, 16 de julho de 2010
lâmpada
click... click.
era pra acender a luz, por que você apagou de novo?
porque eu quis.
e por que você quis?
porque sim...
eu gosto do escuro. enxergo melhor. me enxergo melhor.
como você enxerga se não dá pra ver nada nesse breu, talita?
click.
eu não me referia aos olhos.
era pra acender a luz, por que você apagou de novo?
porque eu quis.
e por que você quis?
porque sim...
eu gosto do escuro. enxergo melhor. me enxergo melhor.
como você enxerga se não dá pra ver nada nesse breu, talita?
click.
eu não me referia aos olhos.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
longe
já fazia três meses.
quando decidi, não previ que seria tão difícil assim, sempre é mais fácil no papel. lógico, papel não é de carne, osso e muito menos de coração.
parece ridículo mas confesso que às vezes sinto um pouco de inveja da matéria inerte. só que é um sentimento irracional, da dor que esmaga e dilacera e me faz pensar nas coisas mais insensatas.
mas o tempo caminha, e embora a meu ver com passos trôpegos, são ainda passos que o levam adiante. e de um dia fizeram-se outros noventa e um.
domingo, 6 de junho de 2010
suco de laranja
está frio. o vento uiva lá fora, as janelas trepidam.
minha garganta está seca, e sinto como se fosse uma nômade sedenta em pleno saara.
são só alguns passos até a cozinha, mas minha preguiça os transforma em quilômetros, em ladeiras extremamente íngremes. eu só queria um leite quente, não sou grande adepta de maratonas. (mas confesso que adoro hipérboles.)
quem sabe se eu conseguir voltar a dormir? daí a sede passa. talvez eu até sonhe com lagos de chocolate quente, à la willy wonka.
saco! não consigo. um carneirinho... dois carneirinhos... três carneirinhos... quem foi o idiota que inventou de contar carneirinhos? não sei porque eu sempre tento se sei que não funciona. acho sou mais idiota ainda por isso.
tá bom, tá bom, vou levantar. vou me enrolar no cobertor, calçar minhas pantufas de ursinho e pegar o leite na cozinha. eu vou, eu vou mesmo! mas daqui a pouco...
ai! o vento fez um barulhão fantasmagórico agora, acho que queria me dar uma bronca. tudo bem, agora eu vou.
passos arrastados, sonolentos. mas finalmente cheguei. preciso pegar a caneca no armário antes.
putz! quebrei um copo. eu sempre faço isso. acho que minha mão é realmente furada. agora vou ter que pegar a vassoura e um jornal pra limpar essa meleca. maldita hora em que saí da cama!
ah, até que foi fácil, sorte que o copo se quebrou em cacos grandes. e que eu lembrei de colocar as pantufas!
tá, agora sim: a caneca que estava atrás do maldito copo. já vou ligar o micro-ondas na tomada.
glória! já quase sinto o gosto do leite quentinho me aquecendo por dentro.
enfim, só falta pegar o bendito na geladeira. eu abro a porta e...
droga! só tem suco de laranja!
minha garganta está seca, e sinto como se fosse uma nômade sedenta em pleno saara.
são só alguns passos até a cozinha, mas minha preguiça os transforma em quilômetros, em ladeiras extremamente íngremes. eu só queria um leite quente, não sou grande adepta de maratonas. (mas confesso que adoro hipérboles.)
quem sabe se eu conseguir voltar a dormir? daí a sede passa. talvez eu até sonhe com lagos de chocolate quente, à la willy wonka.
saco! não consigo. um carneirinho... dois carneirinhos... três carneirinhos... quem foi o idiota que inventou de contar carneirinhos? não sei porque eu sempre tento se sei que não funciona. acho sou mais idiota ainda por isso.
tá bom, tá bom, vou levantar. vou me enrolar no cobertor, calçar minhas pantufas de ursinho e pegar o leite na cozinha. eu vou, eu vou mesmo! mas daqui a pouco...
ai! o vento fez um barulhão fantasmagórico agora, acho que queria me dar uma bronca. tudo bem, agora eu vou.
passos arrastados, sonolentos. mas finalmente cheguei. preciso pegar a caneca no armário antes.
putz! quebrei um copo. eu sempre faço isso. acho que minha mão é realmente furada. agora vou ter que pegar a vassoura e um jornal pra limpar essa meleca. maldita hora em que saí da cama!
ah, até que foi fácil, sorte que o copo se quebrou em cacos grandes. e que eu lembrei de colocar as pantufas!
tá, agora sim: a caneca que estava atrás do maldito copo. já vou ligar o micro-ondas na tomada.
glória! já quase sinto o gosto do leite quentinho me aquecendo por dentro.
enfim, só falta pegar o bendito na geladeira. eu abro a porta e...
droga! só tem suco de laranja!
segunda-feira, 31 de maio de 2010
doce de saudade
ingredientes:
1 foto antiga
1 primeira boneca
1 roupinha de bebê
1 papel de presente rasgado
1 cartão de aniversário
1 lencinho
modo de preparo:
olhe a foto antiga e relembre daquele exato instante. das pessoas que estavam com você, do sorriso que você sorriu.
observe atentamente a boneca, sinta na pele a roupinha, sinta de novo como foi crescer, como foi se tornar quem você é agora.
lembre do presente que um dia foi embrulhado no papel rasgado. lembre também das presenças que ganhou. dos abraços apertados que deu e dos que recebeu também.
leia no cartão tudo o que te desejaram. todo o amor, toda a saúde e a alegria que você, no agora futuro, deveria ter.
seja o espectador do filme da sua vida que já passou, veja mais uma vez as pessoas que já foram embora. brinque de novo no carrossel, espere pelo papai noel, aprenda a escrever. sonhe mais uma vez os sonhos que você sonhou um dia.
sinta a doçura de uma lembrança como quem sente o açúcar de um bombom.
seque as lágrimas com o lencinho.
sorria. só sente saudade quem conseguiu transformar simples momentos em momentos especiais.
1 foto antiga
1 primeira boneca
1 roupinha de bebê
1 papel de presente rasgado
1 cartão de aniversário
1 lencinho
modo de preparo:
olhe a foto antiga e relembre daquele exato instante. das pessoas que estavam com você, do sorriso que você sorriu.
observe atentamente a boneca, sinta na pele a roupinha, sinta de novo como foi crescer, como foi se tornar quem você é agora.
lembre do presente que um dia foi embrulhado no papel rasgado. lembre também das presenças que ganhou. dos abraços apertados que deu e dos que recebeu também.
leia no cartão tudo o que te desejaram. todo o amor, toda a saúde e a alegria que você, no agora futuro, deveria ter.
seja o espectador do filme da sua vida que já passou, veja mais uma vez as pessoas que já foram embora. brinque de novo no carrossel, espere pelo papai noel, aprenda a escrever. sonhe mais uma vez os sonhos que você sonhou um dia.
sinta a doçura de uma lembrança como quem sente o açúcar de um bombom.
seque as lágrimas com o lencinho.
sorria. só sente saudade quem conseguiu transformar simples momentos em momentos especiais.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
da varanda
da varanda vi a vida passar.
vi a vovó andando vagarosa, com sacolas cheias. acho que era dia de feira.
vi o menino correndo atrás da bola que caiu no quintal do vizinho.
vi a chuva cair bem fininha, se afinando cada vez mais, até dizer adeus.
vi um moço passando apressado, de botina e casaco, olhando seu relógio de ouro. pensei que talvez ele estivesse ansioso para um encontro. ou quem sabe atrasado para pegar o ônibus para sua cidade natal.
vi o cachorro tirando uma soneca na calçada, se aquecendo com o solzinho que surgiu depois da garoa.
vi as amigas com as mochilas nas costas, voltando da escola. riam alto e tão gostoso que deu até vontade de rir também.
vi o carteiro fazendo suas entregas, parecia meio triste. ou talvez fosse só o cansaço.
vi uma mulher varrendo a calçada, cheia de folhas secas.
vi o garoto todo veloz, descendo a rua com sua bicicleta. e depois voltando num ritmo mais lento.
vi o movimento, vi a quietude, vi o rebuliço. vi o que estava lá para ser visto. vi a vida passar.
e quando voltei para dentro de casa, me dei de cara com a minha própria vida: inerte e sem figuração. calcei então minhas sapatilhas de verniz, passei um batom coral, peguei minha bolsa e saí. não quero mais ver da varanda, quero que outras varandas me vejam.
vi a vovó andando vagarosa, com sacolas cheias. acho que era dia de feira.
vi o menino correndo atrás da bola que caiu no quintal do vizinho.
vi a chuva cair bem fininha, se afinando cada vez mais, até dizer adeus.
vi um moço passando apressado, de botina e casaco, olhando seu relógio de ouro. pensei que talvez ele estivesse ansioso para um encontro. ou quem sabe atrasado para pegar o ônibus para sua cidade natal.
vi o cachorro tirando uma soneca na calçada, se aquecendo com o solzinho que surgiu depois da garoa.
vi as amigas com as mochilas nas costas, voltando da escola. riam alto e tão gostoso que deu até vontade de rir também.
vi o carteiro fazendo suas entregas, parecia meio triste. ou talvez fosse só o cansaço.
vi uma mulher varrendo a calçada, cheia de folhas secas.
vi o garoto todo veloz, descendo a rua com sua bicicleta. e depois voltando num ritmo mais lento.
vi o movimento, vi a quietude, vi o rebuliço. vi o que estava lá para ser visto. vi a vida passar.
e quando voltei para dentro de casa, me dei de cara com a minha própria vida: inerte e sem figuração. calcei então minhas sapatilhas de verniz, passei um batom coral, peguei minha bolsa e saí. não quero mais ver da varanda, quero que outras varandas me vejam.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
me diga, lídia
me diga, lídia, por que você chora?
no que você pensa quando fecha os olhos?
quais são os seus medos, qual é a sua história?
no que você acredita, o que você detesta?
quais são suas manias, o que te apavora?
me diga lídia, me diga...
de onde você veio, como chegou aqui?
quem são seus amigos, qual sua flor preferida?
o que te faz sorrir?
qual seu maior sonho, o que você almeja?
que música te faz cantar?
me diga, lídia.
eu penso no silêncio, tenho medo de avião.
minha história ainda não teve fim, não posso te contar.
acredito em contos de fada, detesto sorvete de morango
tenho mania de inventar manias, fico apavorada com o som do vento batendo na janela.
não sei da onde eu vim, parece que cheguei de para quedas.
você é meu único amigo, gosto de violetas.
sorrio com cachorrinhos e com os sorrisos dos outros.
meu maior sonho são todos os meus sonhos pequenos, e é isso que eu almejo.
não sei cantar, talvez seja por isso que eu goste de ouvir noturnos.
mas me diga, lídia, por que você chora?
choro porque se você me fizesse essas perguntas há dez minutos, todas as respostas seriam diferentes. choro porque não sei na verdade quem eu sou.
no que você pensa quando fecha os olhos?
quais são os seus medos, qual é a sua história?
no que você acredita, o que você detesta?
quais são suas manias, o que te apavora?
me diga lídia, me diga...
de onde você veio, como chegou aqui?
quem são seus amigos, qual sua flor preferida?
o que te faz sorrir?
qual seu maior sonho, o que você almeja?
que música te faz cantar?
me diga, lídia.
eu penso no silêncio, tenho medo de avião.
minha história ainda não teve fim, não posso te contar.
acredito em contos de fada, detesto sorvete de morango
tenho mania de inventar manias, fico apavorada com o som do vento batendo na janela.
não sei da onde eu vim, parece que cheguei de para quedas.
você é meu único amigo, gosto de violetas.
sorrio com cachorrinhos e com os sorrisos dos outros.
meu maior sonho são todos os meus sonhos pequenos, e é isso que eu almejo.
não sei cantar, talvez seja por isso que eu goste de ouvir noturnos.
mas me diga, lídia, por que você chora?
choro porque se você me fizesse essas perguntas há dez minutos, todas as respostas seriam diferentes. choro porque não sei na verdade quem eu sou.
terça-feira, 18 de maio de 2010
quando escurecer
quando a lua disser olá,
quando o vento cortar seu rosto,
quando o flash for necessário,
quando o jantar estiver na mesa,
quando a novela começar,
quando a criança pedir uma história,
quando a cigarra cantar mais alto,
quando o marido chegar do trabalho,
quando os mostros saírem dos armários,
quando a dor se acentuar,
abra os olhos, acenda a luz.
quando o vento cortar seu rosto,
quando o flash for necessário,
quando o jantar estiver na mesa,
quando a novela começar,
quando a criança pedir uma história,
quando a cigarra cantar mais alto,
quando o marido chegar do trabalho,
quando os mostros saírem dos armários,
quando a dor se acentuar,
abra os olhos, acenda a luz.
domingo, 9 de maio de 2010
sobre o que não sei
(texto que escrevi em 5/07/2007)
resolvi escrever pra talvez tentar entender um pouco mais das coisas que não sei.
ora, mas que idéia tola a minha! entender para que, afinal? por quê será que temos essa mania automática de buscar definições? já disseram que definir é limitar, e eu, pelo menos, não busco nenhum limite que não seja o horizonte.
nessa busca do entender, acho que entendi que, de certa forma, passamos a entender as coisas a partir do momento que começamos a sentí-las.
não, eu não entendo a imensidão do sol, eu não entendo a sua luz que reflete nos fragmentos daquele espelho quebrado. mas eu sinto seu calor. e puxa, como é bom!
eu não entendo a noite escura, os sussuros da floresta, a lágrima, o magma, a solidão de quem espera.
não entendo os passarinhos, nem sua música tão suave, não entendo o conhecido, que me dá um "oi", de passagem.
muito menos eu entendo o que sou ou o que faço aqui, minha vida é um monte de "não entendo"s, misturados com meu sentir. e posso dizer que sinto, essa é a única coisa que sei.
às vezes me sinto mal. outras vezes, me sinto tão bem... e também sinto algumas coisas, que por mais que eu tente, não consigo explicar a ninguém.
não entendo o passar do tempo, e nem entendo quando o tempo parece parar.
não entendo os pingos de chuva, nem minha voz rouca, de tanto gritar.
não entendo porque não entendo e não entendo, inclusive, porque às vezes quero tanto entender.
resolvi escrever pra talvez tentar entender um pouco mais das coisas que não sei.
ora, mas que idéia tola a minha! entender para que, afinal? por quê será que temos essa mania automática de buscar definições? já disseram que definir é limitar, e eu, pelo menos, não busco nenhum limite que não seja o horizonte.
nessa busca do entender, acho que entendi que, de certa forma, passamos a entender as coisas a partir do momento que começamos a sentí-las.
não, eu não entendo a imensidão do sol, eu não entendo a sua luz que reflete nos fragmentos daquele espelho quebrado. mas eu sinto seu calor. e puxa, como é bom!
eu não entendo a noite escura, os sussuros da floresta, a lágrima, o magma, a solidão de quem espera.
não entendo os passarinhos, nem sua música tão suave, não entendo o conhecido, que me dá um "oi", de passagem.
muito menos eu entendo o que sou ou o que faço aqui, minha vida é um monte de "não entendo"s, misturados com meu sentir. e posso dizer que sinto, essa é a única coisa que sei.
às vezes me sinto mal. outras vezes, me sinto tão bem... e também sinto algumas coisas, que por mais que eu tente, não consigo explicar a ninguém.
não entendo o passar do tempo, e nem entendo quando o tempo parece parar.
não entendo os pingos de chuva, nem minha voz rouca, de tanto gritar.
não entendo porque não entendo e não entendo, inclusive, porque às vezes quero tanto entender.
terça-feira, 27 de abril de 2010
queria pular bem alto, esbarrar em uma estrela colorida. poder pegá-la como se fosse pequenina, guardar no meu bolso e levar aquele ponto de luz para qualquer escuridão que eu fosse.
queria dançar sobre as ondas, num vai e vem sinuoso e calmante. acompanhada apenas da imensidão que me rodeia.
queria ouvir silêncios. a sonoridade dos gestos mudos.
queria fechar os olhos e enxergar meus mundos imaginários, minha realidade abstrata.
queria, queria tanto...
queria dançar sobre as ondas, num vai e vem sinuoso e calmante. acompanhada apenas da imensidão que me rodeia.
queria ouvir silêncios. a sonoridade dos gestos mudos.
queria fechar os olhos e enxergar meus mundos imaginários, minha realidade abstrata.
queria, queria tanto...
quarta-feira, 21 de abril de 2010
amanhã eu vou abrir os olhos e ver sentimentos, ver coisas-não-visíveis.
ouvirei música crua, música-não-música, melodia não melodiosa.
sentirei na pele o que sinto por dentro. o arrepio de sentir lembranças. o sorriso de sorrir por dentro. a tristeza de chorar feridas.
vou aspirar o perfume doce de um olhar sincero. sentir o agridoce de uma lágrima tardia.
e quando explodir de sensações, fecharei os olhos para abrir de novo e ver apenas o que me dizem que está ali. a estaticidade muda e insossa.
ouvirei música crua, música-não-música, melodia não melodiosa.
sentirei na pele o que sinto por dentro. o arrepio de sentir lembranças. o sorriso de sorrir por dentro. a tristeza de chorar feridas.
vou aspirar o perfume doce de um olhar sincero. sentir o agridoce de uma lágrima tardia.
e quando explodir de sensações, fecharei os olhos para abrir de novo e ver apenas o que me dizem que está ali. a estaticidade muda e insossa.
domingo, 18 de abril de 2010
lembrei de um sonho que nunca vi. fechei os olhos e simplesmente lembrei.
a porta aberta, os passos tortos. a noite, o céu, o medo. uma estrela brilhava grande e absoluta. em meio a tanta coisa, estava sozinha, tímida. me vi sozinha também, mesmo rodeada de rostos. rostos que gritavam e me pediam uma resposta. mas eu não sabia responder, nunca me fizeram uma pergunta. para os outros parecia tão óbvio, tão certo...
talvez eu seja errada.
a porta aberta, os passos tortos. a noite, o céu, o medo. uma estrela brilhava grande e absoluta. em meio a tanta coisa, estava sozinha, tímida. me vi sozinha também, mesmo rodeada de rostos. rostos que gritavam e me pediam uma resposta. mas eu não sabia responder, nunca me fizeram uma pergunta. para os outros parecia tão óbvio, tão certo...
talvez eu seja errada.
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