segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Luli

Luli não nasceu, simplesmente apareceu um certo dia em um certo lugar, num tempo um tanto quanto incerto. Chovia e fazia sol.
Ela era uma garota, uma garota azul. Azul anil. Mas às vezes o tom do azul variava, de acordo com o seu humor. Era sutil, e todos ficavam sempre tão espantados com aquela cor que nem percebiam suas nuances.
Luli falava, Luli cantava, mas ninguém lembrava de sua voz, porque ninguém nunca a ouvia de verdade. Para os outros ela era muda, era apenas uma imagem, uma pintura estranha.
Luli chorava, mas nenhuma pessoa nunca lhe ofereceu um lenço, muito menos um ombro amigo. Ninguém reparava.
Luli gostava de ser azul, gostava de ser diferente. Mas cansou de não ter voz, de ser incompreendida. E então, um dia, enquanto todas as pessoas do planeta dormiam, Luli foi embora. Pegou carona com um cometa forasteiro e foi conhecer outras esquinas. Foi além do sistema solar e conheceu milhares de planetas. Viu astros tão lindos que quando os via seus olhos se enchiam de lágrimas e seu peito se enchia de paz.
Luli nunca mais viu nenhuma pessoa. Nem mesmo um cachorro ou uma flor sequer. E embora devesse se sentir solitária, isso nunca aconteceu. A garota se sentia bem, se sentia completa. Estava em sua própria companhia, e para ela já era o bastante. Estava com ela mesma como nunca antes pôde estar. O azul de sua pele nunca havia sido tão brilhante, tão lindo.