segunda-feira, 31 de maio de 2010

doce de saudade

ingredientes:

1 foto antiga
1 primeira boneca
1 roupinha de bebê
1 papel de presente rasgado
1 cartão de aniversário
1 lencinho

modo de preparo:

olhe a foto antiga e relembre daquele exato instante. das pessoas que estavam com você, do sorriso que você sorriu.
observe atentamente a boneca, sinta na pele a roupinha, sinta de novo como foi crescer, como foi se tornar quem você é agora.
lembre do presente que um dia foi embrulhado no papel rasgado. lembre também das presenças que ganhou. dos abraços apertados que deu e dos que recebeu também.
leia no cartão tudo o que te desejaram. todo o amor, toda a saúde e a alegria que você, no agora futuro, deveria ter.
seja o espectador do filme da sua vida que já passou, veja mais uma vez as pessoas que já foram embora. brinque de novo no carrossel, espere pelo papai noel, aprenda a escrever. sonhe mais uma vez os sonhos que você sonhou um dia.
sinta a doçura de uma lembrança como quem sente o açúcar de um bombom.
seque as lágrimas com o lencinho.
sorria. só sente saudade quem conseguiu transformar simples momentos em momentos especiais.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

da varanda

da varanda vi a vida passar.
vi a vovó andando vagarosa, com sacolas cheias. acho que era dia de feira.
vi o menino correndo atrás da bola que caiu no quintal do vizinho.
vi a chuva cair bem fininha, se afinando cada vez mais, até dizer adeus.
vi um moço passando apressado, de botina e casaco, olhando seu relógio de ouro. pensei que talvez ele estivesse ansioso para um encontro. ou quem sabe atrasado para pegar o ônibus para sua cidade natal.
vi o cachorro tirando uma soneca na calçada, se aquecendo com o solzinho que surgiu depois da garoa.
vi as amigas com as mochilas nas costas, voltando da escola. riam alto e tão gostoso que deu até vontade de rir também.
vi o carteiro fazendo suas entregas, parecia meio triste. ou talvez fosse só o cansaço.
vi uma mulher varrendo a calçada, cheia de folhas secas.
vi o garoto todo veloz, descendo a rua com sua bicicleta. e depois voltando num ritmo mais lento.
vi o movimento, vi a quietude, vi o rebuliço. vi o que estava lá para ser visto. vi a vida passar.
e quando voltei para dentro de casa, me dei de cara com a minha própria vida: inerte e sem figuração. calcei então minhas sapatilhas de verniz, passei um batom coral, peguei minha bolsa e saí. não quero mais ver da varanda, quero que outras varandas me vejam.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

me diga, lídia

me diga, lídia, por que você chora?
no que você pensa quando fecha os olhos?
quais são os seus medos, qual é a sua história?
no que você acredita, o que você detesta?
quais são suas manias, o que te apavora?
me diga lídia, me diga...
de onde você veio, como chegou aqui?
quem são seus amigos, qual sua flor preferida?
o que te faz sorrir?
qual seu maior sonho, o que você almeja?
que música te faz cantar?
me diga, lídia.

eu penso no silêncio, tenho medo de avião.
minha história ainda não teve fim, não posso te contar.
acredito em contos de fada, detesto sorvete de morango
tenho mania de inventar manias, fico apavorada com o som do vento batendo na janela.
não sei da onde eu vim, parece que cheguei de para quedas.
você é meu único amigo, gosto de violetas.
sorrio com cachorrinhos e com os sorrisos dos outros.
meu maior sonho são todos os meus sonhos pequenos, e é isso que eu almejo.
não sei cantar, talvez seja por isso que eu goste de ouvir noturnos.


mas me diga, lídia, por que você chora?

choro porque se você me fizesse essas perguntas há dez minutos, todas as respostas seriam diferentes. choro porque não sei na verdade quem eu sou.


terça-feira, 18 de maio de 2010

quando escurecer

quando a lua disser olá,
quando o vento cortar seu rosto,
quando o flash for necessário,
quando o jantar estiver na mesa,
quando a novela começar,
quando a criança pedir uma história,
quando a cigarra cantar mais alto,
quando o marido chegar do trabalho,
quando os mostros saírem dos armários,
quando a dor se acentuar,

abra os olhos, acenda a luz.

domingo, 9 de maio de 2010

sobre o que não sei

(texto que escrevi em 5/07/2007)

resolvi escrever pra talvez tentar entender um pouco mais das coisas que não sei.
ora, mas que idéia tola a minha! entender para que, afinal? por quê será que temos essa mania automática de buscar definições? já disseram que definir é limitar, e eu, pelo menos, não busco nenhum limite que não seja o horizonte.
nessa busca do entender, acho que entendi que, de certa forma, passamos a entender as coisas a partir do momento que começamos a sentí-las.
não, eu não entendo a imensidão do sol, eu não entendo a sua luz que reflete nos fragmentos daquele espelho quebrado. mas eu sinto seu calor. e puxa, como é bom!
eu não entendo a noite escura, os sussuros da floresta, a lágrima, o magma, a solidão de quem espera.
não entendo os passarinhos, nem sua música tão suave, não entendo o conhecido, que me dá um "oi", de passagem.
muito menos eu entendo o que sou ou o que faço aqui, minha vida é um monte de "não entendo"s, misturados com meu sentir. e posso dizer que sinto, essa é a única coisa que sei.
às vezes me sinto mal. outras vezes, me sinto tão bem... e também sinto algumas coisas, que por mais que eu tente, não consigo explicar a ninguém.
não entendo o passar do tempo, e nem entendo quando o tempo parece parar.
não entendo os pingos de chuva, nem minha voz rouca, de tanto gritar.
não entendo porque não entendo e não entendo, inclusive, porque às vezes quero tanto entender.