da varanda vi a vida passar.
vi a vovó andando vagarosa, com sacolas cheias. acho que era dia de feira.
vi o menino correndo atrás da bola que caiu no quintal do vizinho.
vi a chuva cair bem fininha, se afinando cada vez mais, até dizer adeus.
vi um moço passando apressado, de botina e casaco, olhando seu relógio de ouro. pensei que talvez ele estivesse ansioso para um encontro. ou quem sabe atrasado para pegar o ônibus para sua cidade natal.
vi o cachorro tirando uma soneca na calçada, se aquecendo com o solzinho que surgiu depois da garoa.
vi as amigas com as mochilas nas costas, voltando da escola. riam alto e tão gostoso que deu até vontade de rir também.
vi o carteiro fazendo suas entregas, parecia meio triste. ou talvez fosse só o cansaço.
vi uma mulher varrendo a calçada, cheia de folhas secas.
vi o garoto todo veloz, descendo a rua com sua bicicleta. e depois voltando num ritmo mais lento.
vi o movimento, vi a quietude, vi o rebuliço. vi o que estava lá para ser visto. vi a vida passar.
e quando voltei para dentro de casa, me dei de cara com a minha própria vida: inerte e sem figuração. calcei então minhas sapatilhas de verniz, passei um batom coral, peguei minha bolsa e saí. não quero mais ver da varanda, quero que outras varandas me vejam.
das coisas que nunca viverei um dia.
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Quem sou eu
- Nathália
- 20 anos de memórias. milhões de sonhos. menina, ainda.