Zum zum zum. Meia hora e vou embora. Corre logo, termina o traço, porque daqui a pouco eu passo. Zum zum zum.
E de um risca-risca afobado, saiu o desenho do menino. E foi em tempo, pois logo que largou o lápis a mãe veio chamar. Já era hora de dormir, acabara a hora da lição.
Zum zum zum. Dorme bem, também vou nessa. Até eu que nunca paro mereço tirar um soneca. ZzZ...
das coisas que nunca viverei um dia.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Luli
Luli não nasceu, simplesmente apareceu um certo dia em um certo lugar, num tempo um tanto quanto incerto. Chovia e fazia sol.
Ela era uma garota, uma garota azul. Azul anil. Mas às vezes o tom do azul variava, de acordo com o seu humor. Era sutil, e todos ficavam sempre tão espantados com aquela cor que nem percebiam suas nuances.
Luli falava, Luli cantava, mas ninguém lembrava de sua voz, porque ninguém nunca a ouvia de verdade. Para os outros ela era muda, era apenas uma imagem, uma pintura estranha.
Luli chorava, mas nenhuma pessoa nunca lhe ofereceu um lenço, muito menos um ombro amigo. Ninguém reparava.
Luli gostava de ser azul, gostava de ser diferente. Mas cansou de não ter voz, de ser incompreendida. E então, um dia, enquanto todas as pessoas do planeta dormiam, Luli foi embora. Pegou carona com um cometa forasteiro e foi conhecer outras esquinas. Foi além do sistema solar e conheceu milhares de planetas. Viu astros tão lindos que quando os via seus olhos se enchiam de lágrimas e seu peito se enchia de paz.
Luli nunca mais viu nenhuma pessoa. Nem mesmo um cachorro ou uma flor sequer. E embora devesse se sentir solitária, isso nunca aconteceu. A garota se sentia bem, se sentia completa. Estava em sua própria companhia, e para ela já era o bastante. Estava com ela mesma como nunca antes pôde estar. O azul de sua pele nunca havia sido tão brilhante, tão lindo.
Ela era uma garota, uma garota azul. Azul anil. Mas às vezes o tom do azul variava, de acordo com o seu humor. Era sutil, e todos ficavam sempre tão espantados com aquela cor que nem percebiam suas nuances.
Luli falava, Luli cantava, mas ninguém lembrava de sua voz, porque ninguém nunca a ouvia de verdade. Para os outros ela era muda, era apenas uma imagem, uma pintura estranha.
Luli chorava, mas nenhuma pessoa nunca lhe ofereceu um lenço, muito menos um ombro amigo. Ninguém reparava.
Luli gostava de ser azul, gostava de ser diferente. Mas cansou de não ter voz, de ser incompreendida. E então, um dia, enquanto todas as pessoas do planeta dormiam, Luli foi embora. Pegou carona com um cometa forasteiro e foi conhecer outras esquinas. Foi além do sistema solar e conheceu milhares de planetas. Viu astros tão lindos que quando os via seus olhos se enchiam de lágrimas e seu peito se enchia de paz.
Luli nunca mais viu nenhuma pessoa. Nem mesmo um cachorro ou uma flor sequer. E embora devesse se sentir solitária, isso nunca aconteceu. A garota se sentia bem, se sentia completa. Estava em sua própria companhia, e para ela já era o bastante. Estava com ela mesma como nunca antes pôde estar. O azul de sua pele nunca havia sido tão brilhante, tão lindo.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Quando meu sol era amarelo
Meu pai sempre me contava que no dia em que vim ao mundo chovia forte, caiam pedras de granizo enormes do céu, que faziam um barulhinho musical no vidro da janela da maternidade. Porém, -ele dizia- no momento em que nasci, o sol saiu por detrás das nuvens carregadas e brilhou tão forte e majestoso como ele nunca havia visto antes. Não sei se eu acreditava nessa história, mas eu adorava ouvi-la quantas vezes fossem. Me sentia grande no interior da minha pequenez. Me sentia especial.
Talvez seja por isso que eu goste tanto do verão. Quando fecho os olhos, vejo o sol à pino, as sombras duras. Sinto o salgado da água do mar e ouço minha mãe dizer que beber aquela água faz mal. Vejo o sorvete que logo se desfaz e escorre pelo palito. As havaianas coloridas, a água de coco, o ventilador no quarto pra dormir. O vai e vem do leque de espanhola retrátil da minha avó. O biquíni cheio de areia, a bola de promoção de supermercado. A pele vermelha que arde porque esqueci de passar o protetor solar. Acho que tudo isso me remetia ao meu pai e preenchia o vazio que ele deixou em mim quando foi embora. O vazio que eu nunca entendi, mas que doía muito.
Eu sei que eu era pequena, uns cinco, seis anos talvez. Não me lembro ao certo quando e como tudo aquilo aconteceu. Acho que, de alguma forma, meu cérebro tentou ser camarada e suavizou algumas lembranças doloridas. O acontecimento em si ficou meio jogado na minha mémoria, não sei certamente onde, apenas sei que está lá. E eu já vi tantas vezes que hoje nem preciso mais dos meus olhos para enxergar tudo de novo, projetado para fora de mim. Acho que já ficou tão intrínseco que parece até já ter vindo de fábrica.
O vaso de flores lilazes contra a parede anunciou que já era finito. Não sei até hoje quem foi que o lançou. Quando cheguei na sala ele já estava partido em mil pedaços. Depois disso meu pai correu para o quarto, jogou algumas roupas numa mala pequena e me chamou baixinho. "Papai precisa ir", ele disse. E eu chorava. Percebi que ele se esforçava para não desabar também. "Mesmo longe, você vai ser sempre a luz dos meus dias". Me deu um beijo na testa, olhou bem fundo nos meus olhos e foi. Simplesmente foi.
Durante dias eu esperei. Dias não, meses. Anos. Acho que espero até hoje na verdade. Mas ele não voltava. Eu olhava o relógio da sala bater seis horas e imaginava que a qualquer instante ele entraria pela porta de novo, como sempre fizera. Mas ele nunca entrou. E eu fui me acostumando com aquilo, mas sem esquecer. Me acostumei a lembrar. Me acostumei àquele buraco, me acostumei. Isso não tornava nada menos triste. Apenas um pouco mais fácil de lidar.
Quanto a minha mãe, eu nem sei dizer direito. Sempre tive mais afinidade com meu pai. Pra minha mãe eu sempre parecia uma espécie de obrigação com a qual ela tinha que arcar todos os dias. Mas eu sei que ela gostava de mim. Só que às vezes a gente precisa ouvir isso do outro, só saber não basta, é bom ter a certeza traduzida em palavras. E da parte dela eu nunca tive. Ela pouco falava na verdade, e o que ela dizia parecia meio automático, obrigatório, sei lá. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tido vontade de perguntar a ela o que realmente aconteceu. Não, acho que não foi isso. Foi medo. Medo de saber demais. E se meu pai tivesse feito alguma coisa? E se ele não fosse aquele super herói que eu imaginava? Às vezes é preferível criar nossas próprias verdades, porque as verdades dos outros podem machucar demais. Prefiro lidar com isso no escuro, sem porquês, pois talvez o porquê universal dessa história só a torne mais difícil de superar do que ela já é para mim.
Consigo então dividir minha vida em duas partes. O antes e o depois do meu pai ir embora. O momento em que meu sol mudou de cor, em que deixei de ser menina e senti meu peito explodir com um coração de mulher. Do amarelo singelo e óbvio ele se enegreceu, eclipsado pela falta, pelo abandono. No entanto, eu sei que embora ainda esteja escuro, meu sol ainda está lá, vibrante e grandioso como um rei, apenas esperando o eclipse passar. Talvez quando sua luz voltar à tona ele não esteja mais amarelo. Talvez esteja laranja avermelhado. Ou vermelho amarelado. Mas ainda será sol. Ainda será meu. O que muda é que as sombras que caíram sobre mim me fizeram ver as matizes das cores, a composição não mais simplista de tudo ao meu redor.
Talvez seja por isso que eu goste tanto do verão. Quando fecho os olhos, vejo o sol à pino, as sombras duras. Sinto o salgado da água do mar e ouço minha mãe dizer que beber aquela água faz mal. Vejo o sorvete que logo se desfaz e escorre pelo palito. As havaianas coloridas, a água de coco, o ventilador no quarto pra dormir. O vai e vem do leque de espanhola retrátil da minha avó. O biquíni cheio de areia, a bola de promoção de supermercado. A pele vermelha que arde porque esqueci de passar o protetor solar. Acho que tudo isso me remetia ao meu pai e preenchia o vazio que ele deixou em mim quando foi embora. O vazio que eu nunca entendi, mas que doía muito.
Eu sei que eu era pequena, uns cinco, seis anos talvez. Não me lembro ao certo quando e como tudo aquilo aconteceu. Acho que, de alguma forma, meu cérebro tentou ser camarada e suavizou algumas lembranças doloridas. O acontecimento em si ficou meio jogado na minha mémoria, não sei certamente onde, apenas sei que está lá. E eu já vi tantas vezes que hoje nem preciso mais dos meus olhos para enxergar tudo de novo, projetado para fora de mim. Acho que já ficou tão intrínseco que parece até já ter vindo de fábrica.
O vaso de flores lilazes contra a parede anunciou que já era finito. Não sei até hoje quem foi que o lançou. Quando cheguei na sala ele já estava partido em mil pedaços. Depois disso meu pai correu para o quarto, jogou algumas roupas numa mala pequena e me chamou baixinho. "Papai precisa ir", ele disse. E eu chorava. Percebi que ele se esforçava para não desabar também. "Mesmo longe, você vai ser sempre a luz dos meus dias". Me deu um beijo na testa, olhou bem fundo nos meus olhos e foi. Simplesmente foi.
Durante dias eu esperei. Dias não, meses. Anos. Acho que espero até hoje na verdade. Mas ele não voltava. Eu olhava o relógio da sala bater seis horas e imaginava que a qualquer instante ele entraria pela porta de novo, como sempre fizera. Mas ele nunca entrou. E eu fui me acostumando com aquilo, mas sem esquecer. Me acostumei a lembrar. Me acostumei àquele buraco, me acostumei. Isso não tornava nada menos triste. Apenas um pouco mais fácil de lidar.
Quanto a minha mãe, eu nem sei dizer direito. Sempre tive mais afinidade com meu pai. Pra minha mãe eu sempre parecia uma espécie de obrigação com a qual ela tinha que arcar todos os dias. Mas eu sei que ela gostava de mim. Só que às vezes a gente precisa ouvir isso do outro, só saber não basta, é bom ter a certeza traduzida em palavras. E da parte dela eu nunca tive. Ela pouco falava na verdade, e o que ela dizia parecia meio automático, obrigatório, sei lá. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tido vontade de perguntar a ela o que realmente aconteceu. Não, acho que não foi isso. Foi medo. Medo de saber demais. E se meu pai tivesse feito alguma coisa? E se ele não fosse aquele super herói que eu imaginava? Às vezes é preferível criar nossas próprias verdades, porque as verdades dos outros podem machucar demais. Prefiro lidar com isso no escuro, sem porquês, pois talvez o porquê universal dessa história só a torne mais difícil de superar do que ela já é para mim.
Consigo então dividir minha vida em duas partes. O antes e o depois do meu pai ir embora. O momento em que meu sol mudou de cor, em que deixei de ser menina e senti meu peito explodir com um coração de mulher. Do amarelo singelo e óbvio ele se enegreceu, eclipsado pela falta, pelo abandono. No entanto, eu sei que embora ainda esteja escuro, meu sol ainda está lá, vibrante e grandioso como um rei, apenas esperando o eclipse passar. Talvez quando sua luz voltar à tona ele não esteja mais amarelo. Talvez esteja laranja avermelhado. Ou vermelho amarelado. Mas ainda será sol. Ainda será meu. O que muda é que as sombras que caíram sobre mim me fizeram ver as matizes das cores, a composição não mais simplista de tudo ao meu redor.
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- Nathália
- 20 anos de memórias. milhões de sonhos. menina, ainda.