segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

a idéia abandonada - parte 1

existe um lugar que figura além do imaginável, simplesmente porque é terminantemente proibido imaginá-lo. absolutamente ninguém pode saber de sua existência, pois se isso acontecesse o mundo estaria perdido, seria o caos completo. é um local um tanto quanto curioso e abafado, abarrotado de coisas e mais coisas. e é exatamente aí que nossa história começa, no lugar onde nascem as idéias.
apesar de ser aparentemente bagunçado, as regras são seguidas à risca. é natural e fluido. as idéias nascem pequeninas e foscas e se alimentam de toda informação e conhecimento que as rodeiam. aliás, de toda não, apenas do que as interessam. algumas fazem isso rapidamente. são preguiçosas, não querem pensar demais. é só nascer e já incham, brilham e explodem para pipocar no pensamento de qualquer bocó que se julgue o espertalhão achando que a idéia é dele. é nada. idéias já nascem independentes, nem precisam pedir a emancipação. quer dizer, elas são livres para ser quem elas quiserem, mas de uma coisa crucial elas dependem: do senhor das idéias. é ele quem decide o destino de cada idéia, assim que ela esta pronta para partir. e é um trabalho dificílimo e exaustivo. idéias geniais não podem aparecer em cabeças desmioladas, exige toda uma precisão. ainda bem que elas são raridade, e demoram anos, décadas e até séculos para ficarem prontas, elas precisam amadurecer. o que é ótimo, pois assim o senhor das idéias tem bastante tempo para decidir os rumos que elas irão tomar.
zilhões de idéias por dia é muito trabalho para um só. é natural que alguns erros aconteçam. "nossa, que idéia de jerico é essa?" ou "uau, não sabia que você era tão inteligente assim!" (e não é mesmo, pode perceber que essa pessoa nunca mais terá uma idéia tão superior novamente, o senhor das idéias não se permite errar duas vezes numa mesma cabeça) são comuns. o que não é habitual é uma idéia ser esquecida. nunca tinha acontecido, na verdade. mas, como dizem por aí, sempre há uma primeira vez.

(continua...)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

sei lá

ao mesmo tempo que eu queria escrever mil coisas sobre mim, não quero escrever nada. não quero contar, mas às vezes parece que eu preciso. é uma vontade que eu mesma breco. queria dizer mil coisas, mas não acho que vou ter nenhum retorno. então pra que gritar se vou ouvir apenas o eco? o silêncio parece a melhor saída. ou não. escrever sobre o não escrever já é, de alguma forma, escrever. e o mais estranho ainda é eu escrever falando que não quero escrever. enfim, se nem eu me entendo, quem vai entender? sei lá. sei lá mesmo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

das coisas inexatas

confesso que sinto um pouco de medo da falta de certezas absolutas, incontestáveis. o não saber me deixa aflita, perdida.
no entanto, por outro lado, o não saber é um tanto quanto intrigante, e até bonito. são várias possíveis verdades que pairam no interior das dúvidas. azul ou amarelo? hoje ou amanhã? sempre ou nunca? às vezes?
talvez não haja nada que seja completamente certo. talvez a certeza (ainda que efêmera) das coisas consista na escolha que fazemos, na verdade que escolhemos para chamarmos de nossa. é como olhar para várias borboletas voando e capturar apenas uma com as mãos, sem saber se é a mais bela ou a mais forte, porque simplesmente não há como saber. é tornar único o que temos conosco, tornar crível o que talvez não fosse antes, abraçar aquela nova verdade e guardá-la numa gaiola apenas até o momento em que ela precise ir embora. escolher sua verdade é também saber dizer adeus.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O botão do ir embora

Eu queria que existisse um botão que quando eu apertasse me impulsionasse para lugar nenhum. Um botão que, de repente, me levasse a um vácuo não só espacial, mas também interior.
É simplesmente terrível quando você deita sua cabeça no travesseiro e ela é logo invadida por pensamentos negativos. É como se o travesseiro fosse o esconderijo de pequenos monstros das coisas ruins. Não adianta pensar em coisas boas e felizes, pois nessa situação elas são como meras florzinhas que se tornam alimento para os monstros e os deixam cada vez maiores e mais assustadores.
E é no exato momento em que esses monstrengos crescem que eu gostaria de fugir. Flutuar no infinito de uma gravidade zero que fosse só minha, com uma agulha na mão para estourar as bolhas da consciência. Me desligar de tudo e desfrutar do enorme prazer de não ter desprazer algum.
Se existisse esse botão eu iria para a lojinha 24 horas mais próxima comprá-lo e o apertaria agora. No entanto, só me restam as flores.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O menino que ouvia o tempo

Zum zum zum. Meia hora e vou embora. Corre logo, termina o traço, porque daqui a pouco eu passo. Zum zum zum.

E de um risca-risca afobado, saiu o desenho do menino. E foi em tempo, pois logo que largou o lápis a mãe veio chamar. Já era hora de dormir, acabara a hora da lição.

Zum zum zum. Dorme bem, também vou nessa. Até eu que nunca paro mereço tirar um soneca. ZzZ...

Luli

Luli não nasceu, simplesmente apareceu um certo dia em um certo lugar, num tempo um tanto quanto incerto. Chovia e fazia sol.
Ela era uma garota, uma garota azul. Azul anil. Mas às vezes o tom do azul variava, de acordo com o seu humor. Era sutil, e todos ficavam sempre tão espantados com aquela cor que nem percebiam suas nuances.
Luli falava, Luli cantava, mas ninguém lembrava de sua voz, porque ninguém nunca a ouvia de verdade. Para os outros ela era muda, era apenas uma imagem, uma pintura estranha.
Luli chorava, mas nenhuma pessoa nunca lhe ofereceu um lenço, muito menos um ombro amigo. Ninguém reparava.
Luli gostava de ser azul, gostava de ser diferente. Mas cansou de não ter voz, de ser incompreendida. E então, um dia, enquanto todas as pessoas do planeta dormiam, Luli foi embora. Pegou carona com um cometa forasteiro e foi conhecer outras esquinas. Foi além do sistema solar e conheceu milhares de planetas. Viu astros tão lindos que quando os via seus olhos se enchiam de lágrimas e seu peito se enchia de paz.
Luli nunca mais viu nenhuma pessoa. Nem mesmo um cachorro ou uma flor sequer. E embora devesse se sentir solitária, isso nunca aconteceu. A garota se sentia bem, se sentia completa. Estava em sua própria companhia, e para ela já era o bastante. Estava com ela mesma como nunca antes pôde estar. O azul de sua pele nunca havia sido tão brilhante, tão lindo.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quando meu sol era amarelo

Meu pai sempre me contava que no dia em que vim ao mundo chovia forte, caiam pedras de granizo enormes do céu, que faziam um barulhinho musical no vidro da janela da maternidade. Porém, -ele dizia- no momento em que nasci, o sol saiu por detrás das nuvens carregadas e brilhou tão forte e majestoso como ele nunca havia visto antes. Não sei se eu acreditava nessa história, mas eu adorava ouvi-la quantas vezes fossem. Me sentia grande no interior da minha pequenez. Me sentia especial.
Talvez seja por isso que eu goste tanto do verão. Quando fecho os olhos, vejo o sol à pino, as sombras duras. Sinto o salgado da água do mar e ouço minha mãe dizer que beber aquela água faz mal. Vejo o sorvete que logo se desfaz e escorre pelo palito. As havaianas coloridas, a água de coco, o ventilador no quarto pra dormir. O vai e vem do leque de espanhola retrátil da minha avó. O biquíni cheio de areia, a bola de promoção de supermercado. A pele vermelha que arde porque esqueci de passar o protetor solar. Acho que tudo isso me remetia ao meu pai e preenchia o vazio que ele deixou em mim quando foi embora. O vazio que eu nunca entendi, mas que doía muito.
Eu sei que eu era pequena, uns cinco, seis anos talvez. Não me lembro ao certo quando e como tudo aquilo aconteceu. Acho que, de alguma forma, meu cérebro tentou ser camarada e suavizou algumas lembranças doloridas. O acontecimento em si ficou meio jogado na minha mémoria, não sei certamente onde, apenas sei que está lá. E eu já vi tantas vezes que hoje nem preciso mais dos meus olhos para enxergar tudo de novo, projetado para fora de mim. Acho que já ficou tão intrínseco que parece até já ter vindo de fábrica.
O vaso de flores lilazes contra a parede anunciou que já era finito. Não sei até hoje quem foi que o lançou. Quando cheguei na sala ele já estava partido em mil pedaços. Depois disso meu pai correu para o quarto, jogou algumas roupas numa mala pequena e me chamou baixinho. "Papai precisa ir", ele disse. E eu chorava. Percebi que ele se esforçava para não desabar também. "Mesmo longe, você vai ser sempre a luz dos meus dias". Me deu um beijo na testa, olhou bem fundo nos meus olhos e foi. Simplesmente foi.
Durante dias eu esperei. Dias não, meses. Anos. Acho que espero até hoje na verdade. Mas ele não voltava. Eu olhava o relógio da sala bater seis horas e imaginava que a qualquer instante ele entraria pela porta de novo, como sempre fizera. Mas ele nunca entrou. E eu fui me acostumando com aquilo, mas sem esquecer. Me acostumei a lembrar. Me acostumei àquele buraco, me acostumei. Isso não tornava nada menos triste. Apenas um pouco mais fácil de lidar.
Quanto a minha mãe, eu nem sei dizer direito. Sempre tive mais afinidade com meu pai. Pra minha mãe eu sempre parecia uma espécie de obrigação com a qual ela tinha que arcar todos os dias. Mas eu sei que ela gostava de mim. Só que às vezes a gente precisa ouvir isso do outro, só saber não basta, é bom ter a certeza traduzida em palavras. E da parte dela eu nunca tive. Ela pouco falava na verdade, e o que ela dizia parecia meio automático, obrigatório, sei lá. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tido vontade de perguntar a ela o que realmente aconteceu. Não, acho que não foi isso. Foi medo. Medo de saber demais. E se meu pai tivesse feito alguma coisa? E se ele não fosse aquele super herói que eu imaginava? Às vezes é preferível criar nossas próprias verdades, porque as verdades dos outros podem machucar demais. Prefiro lidar com isso no escuro, sem porquês, pois talvez o porquê universal dessa história só a torne mais difícil de superar do que ela já é para mim.
Consigo então dividir minha vida em duas partes. O antes e o depois do meu pai ir embora. O momento em que meu sol mudou de cor, em que deixei de ser menina e senti meu peito explodir com um coração de mulher. Do amarelo singelo e óbvio ele se enegreceu, eclipsado pela falta, pelo abandono. No entanto, eu sei que embora ainda esteja escuro, meu sol ainda está lá, vibrante e grandioso como um rei, apenas esperando o eclipse passar. Talvez quando sua luz voltar à tona ele não esteja mais amarelo. Talvez esteja laranja avermelhado. Ou vermelho amarelado. Mas ainda será sol. Ainda será meu. O que muda é que as sombras que caíram sobre mim me fizeram ver as matizes das cores, a composição não mais simplista de tudo ao meu redor.