está frio. o vento uiva lá fora, as janelas trepidam.
minha garganta está seca, e sinto como se fosse uma nômade sedenta em pleno saara.
são só alguns passos até a cozinha, mas minha preguiça os transforma em quilômetros, em ladeiras extremamente íngremes. eu só queria um leite quente, não sou grande adepta de maratonas. (mas confesso que adoro hipérboles.)
quem sabe se eu conseguir voltar a dormir? daí a sede passa. talvez eu até sonhe com lagos de chocolate quente, à la willy wonka.
saco! não consigo. um carneirinho... dois carneirinhos... três carneirinhos... quem foi o idiota que inventou de contar carneirinhos? não sei porque eu sempre tento se sei que não funciona. acho sou mais idiota ainda por isso.
tá bom, tá bom, vou levantar. vou me enrolar no cobertor, calçar minhas pantufas de ursinho e pegar o leite na cozinha. eu vou, eu vou mesmo! mas daqui a pouco...
ai! o vento fez um barulhão fantasmagórico agora, acho que queria me dar uma bronca. tudo bem, agora eu vou.
passos arrastados, sonolentos. mas finalmente cheguei. preciso pegar a caneca no armário antes.
putz! quebrei um copo. eu sempre faço isso. acho que minha mão é realmente furada. agora vou ter que pegar a vassoura e um jornal pra limpar essa meleca. maldita hora em que saí da cama!
ah, até que foi fácil, sorte que o copo se quebrou em cacos grandes. e que eu lembrei de colocar as pantufas!
tá, agora sim: a caneca que estava atrás do maldito copo. já vou ligar o micro-ondas na tomada.
glória! já quase sinto o gosto do leite quentinho me aquecendo por dentro.
enfim, só falta pegar o bendito na geladeira. eu abro a porta e...
droga! só tem suco de laranja!
das coisas que nunca viverei um dia.
domingo, 6 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
doce de saudade
ingredientes:
1 foto antiga
1 primeira boneca
1 roupinha de bebê
1 papel de presente rasgado
1 cartão de aniversário
1 lencinho
modo de preparo:
olhe a foto antiga e relembre daquele exato instante. das pessoas que estavam com você, do sorriso que você sorriu.
observe atentamente a boneca, sinta na pele a roupinha, sinta de novo como foi crescer, como foi se tornar quem você é agora.
lembre do presente que um dia foi embrulhado no papel rasgado. lembre também das presenças que ganhou. dos abraços apertados que deu e dos que recebeu também.
leia no cartão tudo o que te desejaram. todo o amor, toda a saúde e a alegria que você, no agora futuro, deveria ter.
seja o espectador do filme da sua vida que já passou, veja mais uma vez as pessoas que já foram embora. brinque de novo no carrossel, espere pelo papai noel, aprenda a escrever. sonhe mais uma vez os sonhos que você sonhou um dia.
sinta a doçura de uma lembrança como quem sente o açúcar de um bombom.
seque as lágrimas com o lencinho.
sorria. só sente saudade quem conseguiu transformar simples momentos em momentos especiais.
1 foto antiga
1 primeira boneca
1 roupinha de bebê
1 papel de presente rasgado
1 cartão de aniversário
1 lencinho
modo de preparo:
olhe a foto antiga e relembre daquele exato instante. das pessoas que estavam com você, do sorriso que você sorriu.
observe atentamente a boneca, sinta na pele a roupinha, sinta de novo como foi crescer, como foi se tornar quem você é agora.
lembre do presente que um dia foi embrulhado no papel rasgado. lembre também das presenças que ganhou. dos abraços apertados que deu e dos que recebeu também.
leia no cartão tudo o que te desejaram. todo o amor, toda a saúde e a alegria que você, no agora futuro, deveria ter.
seja o espectador do filme da sua vida que já passou, veja mais uma vez as pessoas que já foram embora. brinque de novo no carrossel, espere pelo papai noel, aprenda a escrever. sonhe mais uma vez os sonhos que você sonhou um dia.
sinta a doçura de uma lembrança como quem sente o açúcar de um bombom.
seque as lágrimas com o lencinho.
sorria. só sente saudade quem conseguiu transformar simples momentos em momentos especiais.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
da varanda
da varanda vi a vida passar.
vi a vovó andando vagarosa, com sacolas cheias. acho que era dia de feira.
vi o menino correndo atrás da bola que caiu no quintal do vizinho.
vi a chuva cair bem fininha, se afinando cada vez mais, até dizer adeus.
vi um moço passando apressado, de botina e casaco, olhando seu relógio de ouro. pensei que talvez ele estivesse ansioso para um encontro. ou quem sabe atrasado para pegar o ônibus para sua cidade natal.
vi o cachorro tirando uma soneca na calçada, se aquecendo com o solzinho que surgiu depois da garoa.
vi as amigas com as mochilas nas costas, voltando da escola. riam alto e tão gostoso que deu até vontade de rir também.
vi o carteiro fazendo suas entregas, parecia meio triste. ou talvez fosse só o cansaço.
vi uma mulher varrendo a calçada, cheia de folhas secas.
vi o garoto todo veloz, descendo a rua com sua bicicleta. e depois voltando num ritmo mais lento.
vi o movimento, vi a quietude, vi o rebuliço. vi o que estava lá para ser visto. vi a vida passar.
e quando voltei para dentro de casa, me dei de cara com a minha própria vida: inerte e sem figuração. calcei então minhas sapatilhas de verniz, passei um batom coral, peguei minha bolsa e saí. não quero mais ver da varanda, quero que outras varandas me vejam.
vi a vovó andando vagarosa, com sacolas cheias. acho que era dia de feira.
vi o menino correndo atrás da bola que caiu no quintal do vizinho.
vi a chuva cair bem fininha, se afinando cada vez mais, até dizer adeus.
vi um moço passando apressado, de botina e casaco, olhando seu relógio de ouro. pensei que talvez ele estivesse ansioso para um encontro. ou quem sabe atrasado para pegar o ônibus para sua cidade natal.
vi o cachorro tirando uma soneca na calçada, se aquecendo com o solzinho que surgiu depois da garoa.
vi as amigas com as mochilas nas costas, voltando da escola. riam alto e tão gostoso que deu até vontade de rir também.
vi o carteiro fazendo suas entregas, parecia meio triste. ou talvez fosse só o cansaço.
vi uma mulher varrendo a calçada, cheia de folhas secas.
vi o garoto todo veloz, descendo a rua com sua bicicleta. e depois voltando num ritmo mais lento.
vi o movimento, vi a quietude, vi o rebuliço. vi o que estava lá para ser visto. vi a vida passar.
e quando voltei para dentro de casa, me dei de cara com a minha própria vida: inerte e sem figuração. calcei então minhas sapatilhas de verniz, passei um batom coral, peguei minha bolsa e saí. não quero mais ver da varanda, quero que outras varandas me vejam.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
me diga, lídia
me diga, lídia, por que você chora?
no que você pensa quando fecha os olhos?
quais são os seus medos, qual é a sua história?
no que você acredita, o que você detesta?
quais são suas manias, o que te apavora?
me diga lídia, me diga...
de onde você veio, como chegou aqui?
quem são seus amigos, qual sua flor preferida?
o que te faz sorrir?
qual seu maior sonho, o que você almeja?
que música te faz cantar?
me diga, lídia.
eu penso no silêncio, tenho medo de avião.
minha história ainda não teve fim, não posso te contar.
acredito em contos de fada, detesto sorvete de morango
tenho mania de inventar manias, fico apavorada com o som do vento batendo na janela.
não sei da onde eu vim, parece que cheguei de para quedas.
você é meu único amigo, gosto de violetas.
sorrio com cachorrinhos e com os sorrisos dos outros.
meu maior sonho são todos os meus sonhos pequenos, e é isso que eu almejo.
não sei cantar, talvez seja por isso que eu goste de ouvir noturnos.
mas me diga, lídia, por que você chora?
choro porque se você me fizesse essas perguntas há dez minutos, todas as respostas seriam diferentes. choro porque não sei na verdade quem eu sou.
no que você pensa quando fecha os olhos?
quais são os seus medos, qual é a sua história?
no que você acredita, o que você detesta?
quais são suas manias, o que te apavora?
me diga lídia, me diga...
de onde você veio, como chegou aqui?
quem são seus amigos, qual sua flor preferida?
o que te faz sorrir?
qual seu maior sonho, o que você almeja?
que música te faz cantar?
me diga, lídia.
eu penso no silêncio, tenho medo de avião.
minha história ainda não teve fim, não posso te contar.
acredito em contos de fada, detesto sorvete de morango
tenho mania de inventar manias, fico apavorada com o som do vento batendo na janela.
não sei da onde eu vim, parece que cheguei de para quedas.
você é meu único amigo, gosto de violetas.
sorrio com cachorrinhos e com os sorrisos dos outros.
meu maior sonho são todos os meus sonhos pequenos, e é isso que eu almejo.
não sei cantar, talvez seja por isso que eu goste de ouvir noturnos.
mas me diga, lídia, por que você chora?
choro porque se você me fizesse essas perguntas há dez minutos, todas as respostas seriam diferentes. choro porque não sei na verdade quem eu sou.
terça-feira, 18 de maio de 2010
quando escurecer
quando a lua disser olá,
quando o vento cortar seu rosto,
quando o flash for necessário,
quando o jantar estiver na mesa,
quando a novela começar,
quando a criança pedir uma história,
quando a cigarra cantar mais alto,
quando o marido chegar do trabalho,
quando os mostros saírem dos armários,
quando a dor se acentuar,
abra os olhos, acenda a luz.
quando o vento cortar seu rosto,
quando o flash for necessário,
quando o jantar estiver na mesa,
quando a novela começar,
quando a criança pedir uma história,
quando a cigarra cantar mais alto,
quando o marido chegar do trabalho,
quando os mostros saírem dos armários,
quando a dor se acentuar,
abra os olhos, acenda a luz.
domingo, 9 de maio de 2010
sobre o que não sei
(texto que escrevi em 5/07/2007)
resolvi escrever pra talvez tentar entender um pouco mais das coisas que não sei.
ora, mas que idéia tola a minha! entender para que, afinal? por quê será que temos essa mania automática de buscar definições? já disseram que definir é limitar, e eu, pelo menos, não busco nenhum limite que não seja o horizonte.
nessa busca do entender, acho que entendi que, de certa forma, passamos a entender as coisas a partir do momento que começamos a sentí-las.
não, eu não entendo a imensidão do sol, eu não entendo a sua luz que reflete nos fragmentos daquele espelho quebrado. mas eu sinto seu calor. e puxa, como é bom!
eu não entendo a noite escura, os sussuros da floresta, a lágrima, o magma, a solidão de quem espera.
não entendo os passarinhos, nem sua música tão suave, não entendo o conhecido, que me dá um "oi", de passagem.
muito menos eu entendo o que sou ou o que faço aqui, minha vida é um monte de "não entendo"s, misturados com meu sentir. e posso dizer que sinto, essa é a única coisa que sei.
às vezes me sinto mal. outras vezes, me sinto tão bem... e também sinto algumas coisas, que por mais que eu tente, não consigo explicar a ninguém.
não entendo o passar do tempo, e nem entendo quando o tempo parece parar.
não entendo os pingos de chuva, nem minha voz rouca, de tanto gritar.
não entendo porque não entendo e não entendo, inclusive, porque às vezes quero tanto entender.
resolvi escrever pra talvez tentar entender um pouco mais das coisas que não sei.
ora, mas que idéia tola a minha! entender para que, afinal? por quê será que temos essa mania automática de buscar definições? já disseram que definir é limitar, e eu, pelo menos, não busco nenhum limite que não seja o horizonte.
nessa busca do entender, acho que entendi que, de certa forma, passamos a entender as coisas a partir do momento que começamos a sentí-las.
não, eu não entendo a imensidão do sol, eu não entendo a sua luz que reflete nos fragmentos daquele espelho quebrado. mas eu sinto seu calor. e puxa, como é bom!
eu não entendo a noite escura, os sussuros da floresta, a lágrima, o magma, a solidão de quem espera.
não entendo os passarinhos, nem sua música tão suave, não entendo o conhecido, que me dá um "oi", de passagem.
muito menos eu entendo o que sou ou o que faço aqui, minha vida é um monte de "não entendo"s, misturados com meu sentir. e posso dizer que sinto, essa é a única coisa que sei.
às vezes me sinto mal. outras vezes, me sinto tão bem... e também sinto algumas coisas, que por mais que eu tente, não consigo explicar a ninguém.
não entendo o passar do tempo, e nem entendo quando o tempo parece parar.
não entendo os pingos de chuva, nem minha voz rouca, de tanto gritar.
não entendo porque não entendo e não entendo, inclusive, porque às vezes quero tanto entender.
terça-feira, 27 de abril de 2010
queria pular bem alto, esbarrar em uma estrela colorida. poder pegá-la como se fosse pequenina, guardar no meu bolso e levar aquele ponto de luz para qualquer escuridão que eu fosse.
queria dançar sobre as ondas, num vai e vem sinuoso e calmante. acompanhada apenas da imensidão que me rodeia.
queria ouvir silêncios. a sonoridade dos gestos mudos.
queria fechar os olhos e enxergar meus mundos imaginários, minha realidade abstrata.
queria, queria tanto...
queria dançar sobre as ondas, num vai e vem sinuoso e calmante. acompanhada apenas da imensidão que me rodeia.
queria ouvir silêncios. a sonoridade dos gestos mudos.
queria fechar os olhos e enxergar meus mundos imaginários, minha realidade abstrata.
queria, queria tanto...
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