sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

na gaveta

tenho a mania de não jogar nada fora. chaveiros quebrados, papéis de presentes, caixinhas de chiclete, pedaços de fita, sacolas, caixas de sapato, canetas que não funcionam mais(dezenas), tenho até bexiga murcha na gaveta. papelada então, nem se fala. cartões de garantia, etiquetas de roupa, cola de matemática(ops, nunca fui boa em decorar fórmulas), propagandas, rabiscos, textos velhos e inacabados, sem falar nas cartas e nos ingressos de cinema, é claro. e tudo isso fica junto e bagunçado nas minhas gavetas. de vez em quando eu resolvo abrí-las, mas sempre com um razoável intervalo de tempo. toda vez tenho alguma surpresa.
eu sei que eu deveria jogar tudo isso fora, e parar de ficar juntando esse monte de lixo(que para mim não é lixo, na verdade). mas sei lá, tem coisas que eu quero guardar porque eu penso que um dia vou poder usar de novo de alguma outra forma (caixas de sapato, por exemplo), outras porque são bonitas, outras eu não sei o porquê. no entanto a maioria eu guardo de lembrança. parece que eu me apego às coisas como se elas fossem uma parte da minha memória separada de mim, e assim eu preciso mantê-las ao meu redor para nunca esquecê-las. tenho mania de colocar a data em tudo que escrevo também. preciso saber o momento exato dessas coisas porque senão serão apenas bobagens perdidas no tempo.
e então, quando eu abro as minhas gavetas, mesmo sem estar procurando, eu acabo encontrando um pedaço de mim. seja numa caneta cor-de-rosa sem tinta, no quadrado do cosseno de x, ou numa confissão que fiz algum dia (e eu sei perfeitamente qual dia foi esse).

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

o monstro do ventilador

ventiladores são feios. parecem flores mutantes enjauladas que fazem um barulho chato.
a simples presença de um ventilador já é horrível, pois logo indica que está um calor do cão lá fora. e não importa o quanto você aumente a potência do negócio, você ainda vai continuar morrendo de calor, porque o ar que vem na sua cara, meu amigo, não vem gelado como a brisa pura da manhã. ele vem quente, empoeirado e sufocante.
e por que então todos usam ventiladores? não sei. as flores mutantes devem liberar uma substância alucinógena que faz com que você ache, inconscientemente, que de repente você foi teletransportado para um lugar onde não esteja 45 malditos graus celsius e onde você não esteja suando em bicas.
e agora ainda existem novos modelos que parecem umas torres de controle que giram para lá e para cá. provavelmente eles têm alguma câmera embutida que fica te vigiando 24 horas por dia.
no entanto, o monstro do ventilador é fichinha perto do chefão, o temível ar condicionado. essa sim é a pior invenção da humanidade.
(tá, não é a pior. mas por favor, chegue logo, outono!)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

chá de sumiço













.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

fim de tarde

é tarde. nas ruas não há ninguém. ou talvez estejam todos dobrando as esquinas ou mimetizados na névoa invisível.
é tarde, não há mais sol do meio dia. lua também não há. talvez tenha minguado tanto até desaparecer por completo, sem rastros e sem carta de despedida, na imensidão do céu.
certa vez cheguei a pensar que o céu era como uma tela feita de algum tecido peculiar que só aceitava a cor azul. azul turquesa, azul piscina, azul marinho, azul anil. e logo depois eu me perguntava como uma coisa consegue variar tanto e ainda assim ser ela mesma.
nunca encontrei a resposta, porque acho que nunca me senti eu mesma. eu me sentia várias, mas não conseguia encontrar o meu lugar comum, um elo que unisse todas as minhas matizes. sempre faltou algo, algum ingrediente nessa receita estranha. talvez o segredo que me falta é saber qual é tão almejado produto, pois toda receita sabe o que deve se tornar. eu não sei nem se é agridoce ou amargo. nem imagino como poderia descobrir isso, não sei por onde procurar. até as coisas mais próximas parecem estar a quilômetros de distância de mim. como se eu fosse um deserto à procura do meu oásis particular.
e agora já é muito tarde. não sei pra quê, não sei por quê. só sei que é o fim. e cada vez eu consigo me acabar mais e mais, como a tarde que ainda se finda mesmo já sendo tarde.

domingo, 2 de janeiro de 2011

flor de algodão



nenhuma flor é tão flor como a flor de algodão.
não tem cor. não tem pétalas. não tem perfume.
a flor de algodão não é de algodão. tampouco é flor.
ainda sim, é mais flor do que sua própria flor.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

sopa de letrinhas

amanhã, beberei com delicadeza elixir fantasioso ganhado hoje. ironicamente, jamais lancei memórias na ópera primorosa que reapresentarão. simplesmente triste. usarei vestido xadrez. zanzarei adoravelmente, bailando canções do exímio flautista galês. historicamente, isso jazerá lembrando multidões nos outros países. queria recitar sentimentos, talvez uma valsa xilofônica zonza. amanhã eu irei ou um outro irá em abdicação. amanhã espero irradiar operetas uníssonas àquela espetacular imaginária ópera universal.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

à flor da pele

queria não achar as flores bonitas. nem nenhuma outra coisa.
queria não achar as flores tristes. nem nenhum outra coisa.
mas acho. acho tanto que dói.
só eu sei o que minhas flores escondem. meu jardim secreto particular e cinza.
e se eu me acostumasse? talvez eu já esteja no meio do caminho. que caminho é esse, eu não sei. e já falei tantas metáforas que me perdi. fim.